A reeleição de Lula, confirmada por uma vantagem superior a 4 milhões de votos, elevou as chances de acionamento do circuit breaker na B3 já nesta segunda-feira. A avaliação é da diretora de macroeconomia para o Brasil do UBS Global Wealth Management (UBS GWM), Solange Srour, que projeta uma resposta negativa do mercado diante da manutenção de uma política econômica expansionista, marcada por aumento de gastos públicos.
Circuit breaker pode voltar a ser acionado após mais de dois anos
O circuit breaker é o mecanismo que interrompe os negócios na bolsa quando o Ibovespa registra queda superior a 10% em um único dia. Sua última ativação havia ocorrido no início da pandemia, em março de 2020. Segundo Solange Srour, em entrevista ao Pipeline, “há uma probabilidade maior de acionamento, mas o mercado já estava bem mais dividido na sexta-feira sobre o resultado do que após o primeiro turno”.
Para contextualizar o cenário, vale lembrar o que ocorreu na segunda-feira seguinte ao primeiro turno: o Ibovespa chegou a subir 9,1% ao longo do pregão e fechou o dia com alta de 7,7%, próximo dos 210 mil pontos. Naquele momento, relatórios de análise chegaram a indicar potencial de valorização de até 45% para o índice em caso de vitória de Flávio Bolsonaro. Já na semana passada, o Ibovespa encerrou em 205 mil pontos.
Governo pode antecipar medidas para conter pressão sobre o real
De acordo com a economista, o governo tem consciência dos riscos de uma reação negativa prolongada do mercado e, por isso, pode se antecipar com anúncios de contenção de gastos, numa tentativa de amenizar a pressão sobre o real e sobre os ativos brasileiros de forma geral. No entanto, ela questiona se existe de fato um plano estruturado nesse sentido: “Não sei se o governo tem um plano B para sinalizar algum ajuste fiscal, depois de ter aprovado tantas medidas que aumentam os gastos da economia de 2027 em diante nos últimos meses.”
Além da conjuntura política interna, a pressão para alta do dólar também tem origem externa. A recente queda das ações de tecnologia nas bolsas americanas, somada à maior busca dos investidores por ativos considerados seguros, tem ocorrido em paralelo a um recuo dos juros globais — fatores que se somam ao quadro doméstico.
Cautela com a Selic até sinalização de ajuste fiscal
Quanto à política monetária, Solange Srour pondera que o Banco Central deixou em aberto a possibilidade de seguir reduzindo a Selic, mas recomenda cautela até que o governo apresente medidas concretas de ajuste fiscal. “Se o governo não mexer nos gastos, as expectativas de inflação voltarão a subir e dificilmente chegarão perto da meta”, afirma.
Na avaliação da economista, o BC não deveria promover cortes superiores a 50 pontos-base no total antes de conhecer as propostas econômicas do novo governo e sua viabilidade política. “O Banco Central pode cortar 25 ou 50 pontos-base, mas terá de ter paciência não conseguirá avançar muito apenas com base nas expectativas”, completa.
Como referência histórica, Solange Srour cita a atuação da autoridade monetária sob Ilan Goldfajn, logo após o impeachment de Dilma Rousseff, período em que a redução dos juros começou de forma gradual e ganhou força à medida que as expectativas de inflação melhoravam. “Se o processo de reformas avançar, poderá ir longe na redução dos juros, mesmo que comece devagar. Mas, se as medidas não avançarem, será necessário interromper o ciclo de cortes, e a Selic poderá não chegar a um dígito”, diz.
Reforma do Judiciário e tensão política preocupam economista
Outro ponto destacado por ela é a relação do novo governo com o Supremo Tribunal Federal. “Também será importante observar as conversas com o Supremo Tribunal Federal, porque algumas reformas acabarão passando pelo STF, e entender como o governo lidará com uma eventual pauta de reforma do Judiciário, que pode, de alguma forma, concorrer com a agenda econômica”, observa.
Por fim, Solange Srour avalia que tanto as manifestações de apoio às duas candidaturas na véspera do segundo turno quanto a contestação do resultado eleitoral já anunciada por Flávio Bolsonaro contribuem para elevar a tensão política, o que pode dificultar a governabilidade — ainda que ela considere improvável qualquer reversão do resultado das urnas. Em suas palavras: “Toda essa confusão atrapalha a economia no médio e no longo prazo muito mais do que as pessoas percebem.”
Com informações de pipelinevalor.globo.com.