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Reestruturação da Oncoclínicas: crédito de Lucas Kallas expõe confronto entre conselheiros — entenda o impasse

Reestruturação da Oncoclínicas: crédito de Lucas Kallas expõe confronto entre conselheiros — entenda o impasse
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A disputa interna na Oncoclínicas ganhou novos contornos a partir de uma reclamação formal protocolada em 13 de outubro, que escancara divergências profundas dentro do conselho de administração da companhia em meio ao processo de recuperação judicial. No centro da controvérsia está o tratamento dado a créditos ligados ao BTS Goiânia, contrato de locação firmado em 2023 para a construção de um hospital na capital goiana, celebrado com a Cedro Participações, empresa do empresário Lucas Kallas.

Segundo os conselheiros Raul Rosenthal Ladeira de Matos, Ademar Vidal Neto e Mateus Affonso Bandeira, o board havia decidido anteriormente que esses créditos eram ilíquidos e, por isso, deveriam ficar fora do processo de recuperação até que uma auditoria das notas fiscais e uma avaliação dos ativos fossem concluídas. No entanto, o trio afirma ter descoberto, durante reunião realizada em 8 de outubro, que a diretoria incluiu R$ 630 milhões referentes a esse crédito no quadro de credores, sem que houvesse auditoria ou laudo técnico que embasasse a decisão.

Crédito de Lucas Kallas no centro da discórdia

De acordo com o documento, a representante da BR Partners, assessora financeira da companhia, informou em reunião de 9 de outubro que a orientação para incluir o valor partiu da própria diretoria em 2 de outubro. Kallas, vale lembrar, foi até pouco tempo investidor relevante da Latache, maior acionista da Oncoclínicas — o que adiciona uma camada de tensão societária ao episódio. Os conselheiros reclamantes afirmam que a contratação do BTS Goiânia está, atualmente, sob apuração de um comitê independente da própria companhia e pedem que a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) investigue o chairman Curti, os conselheiros Antonio Claudio Correa Leite Buchaul e Marco Aurélio Freire Barreto, além dos diretores Carlos Gil e Maurício Hasson.

Além da questão do crédito, a reclamação descreve um conselho esvaziado após a renúncia de Paulo Belém, em 30 de setembro. Segundo o grupo reclamante, essa saída teria retirado da ala ligada à Latache, ao fundo Lumen e ao fundador Bruno Ferrari a maioria nas votações do colegiado. Procurada, a Latache rebateu esse ponto, destacando que “nenhum dos atuais conselheiros foram indicados por ela e hoje, portanto, não tem representação no board”.

Reuniões canceladas e assembleias contestadas

Os conselheiros independentes também acusam o chairman de cancelar reuniões sem justificativa e de deixar de incluir na pauta, como item deliberativo, temas que haviam sido solicitados em ata — entre eles, a contratação de auditoria e de escritório de advocacia especificamente para tratar do caso BTS Goiânia. Diante disso, os três convocaram, por conta própria, uma reunião para 6 de outubro, que não teve quórum e só se realizou em segunda convocação, em 8 de outubro.

O grupo ainda contesta a convocação de duas assembleias gerais extraordinárias: uma marcada para 3 de novembro, voltada à suspensão dos direitos políticos da Josephina III a pedido da Latache, e outra para 6 de novembro, destinada a eleger todo o conselho. Segundo os reclamantes, nenhuma das duas passou por deliberação do colegiado, e a segunda assembleia apresenta como candidatos a presidente e vice-presidente o próprio Curti e Hélio Paulo Ferraz, este último indicado pela Lumen. Os conselheiros classificam como “absolutamente inverídica” a afirmação, constante na proposta da administração, de que o conselho teria aprovado essas convocações.

Dúvidas sobre o plano de recuperação judicial

Em relação ao plano de recuperação judicial da Oncoclínicas, os conselheiros afirmam que a conversão de dívida em ações nunca foi efetivamente negociada com os credores. Segundo a BR Partners, citada no documento, havia a percepção interna de que os principais acionistas não aprovariam a diluição acionária. Além disso, as projeções do plano apontam para uma dívida líquida equivalente a 11 vezes o Ebitda logo após o encerramento da recuperação — cenário que, na avaliação dos reclamantes, pode abrir caminho para uma nova reestruturação no futuro.

Os conselheiros pedem ainda que a CVM avalie se Latache, Lumen e Bruno Ferrari configuram, na prática, um bloco de controle. Caso essa caracterização se confirme, os acionistas minoritários passariam a ter direito de eleger um conselheiro em separado, o que afetaria diretamente a independência dos demais membros do colegiado. Solicitam, por fim, que se apure se Latache e Lumen prestaram informações enganosas ao comunicar suas participações societárias.

Resposta do chairman e posicionamento da Cedro Participações

Em resposta à notificação enviada pelos conselheiros, e citada na própria reclamação, Curti afirmou que as matérias que exigirem deliberação serão submetidas ao colegiado em reunião convocada conforme a lei e o estatuto social da companhia. Sobre um e-mail copiado a advogados do escritório Wald Advogados, ele alegou que se trata de profissionais contratados em caráter pessoal para assessorá-lo.

A Oncoclínicas foi procurada para comentar os pontos levantados tanto pela empresa quanto pelos conselheiros mencionados, mas não houve retorno até a publicação desta matéria. Já a Latache rechaçou a tese de formação de bloco de controle.

A Cedro Participações, que não figura como parte na reclamação apresentada à CVM, informou em nota que o crédito referente ao BTS Goiânia tem origem em contrato assinado em janeiro de 2023 pela então administração da Oncoclínicas, para a construção de um hospital em Goiânia “com investimento superior a R$ 600 milhões, e a rescisão antecipada e unilateral desse contrato, comunicada pela própria companhia em junho de 2026”.

“Os conselheiros que recorreram à CVM não questionam a existência do contrato, da obra ou da rescisão. Propõem apenas que a dívida fique fora da lista de credores até uma auditoria que a própria companhia deixou de contratar por meses”, afirma a Cedro, acrescentando que “ilíquido não significa inexistente, e adiar indefinidamente o reconhecimento de uma obrigação conhecida não é diligência: é não pagar”.

O episódio evidencia a fragilidade da governança corporativa da Oncoclínicas em um momento delicado, no qual a empresa busca reorganizar suas finanças e manter a confiança de credores, acionistas e do mercado em geral. Enquanto a CVM não se manifesta sobre os pedidos de investigação, o confronto entre os conselheiros promete continuar pautando os próximos capítulos da recuperação judicial da companhia.

Com informações de pipelinevalor.globo.com.

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