A inteligência artificial generativa estaria tornando as pessoas mais criativas ou menos? A pergunta ganha peso quando se considera que a criatividade costuma ser o motor das ideias e dos empreendimentos mais bem-sucedidos, e que 83% dos executivos seniores colocam a inovação entre suas três principais prioridades. Por isso, compreender como o uso da IA afeta a criatividade humana tornou-se essencial para as empresas que buscam se manter competitivas.
De um lado, a IA generativa pode funcionar como uma parceira valiosa para o brainstorming, permitindo que criadores e profissionais de design testem rapidamente diferentes ideias e conceitos. Por outro lado, há o risco de que ela restrinja a criatividade sem que ninguém perceba, limitando o campo de busca por soluções cedo demais e incentivando as pessoas a se contentarem com sugestões geradas automaticamente que parecem “boas o suficiente”.
Criatividade com IA: o que quatro estudos recentes revelam
Quatro estudos recentes mostram que a realidade é mais complexa do que essa simples dicotomia sugere. As pesquisas indicam que, embora a IA possa ampliar a criatividade individual, ela tende a reduzir a criatividade coletiva. Para entender esse fenômeno, é preciso antes esclarecer o próprio conceito de criatividade.
Estudiosos costumam definir criatividade como a interseção entre novidade e utilidade: novidade é o grau de originalidade de uma ideia, enquanto utilidade mede o quanto ela é eficaz para cumprir seu propósito. Uma ideia original, mas inútil, ou útil, mas sem nenhuma originalidade, não pode ser considerada criativa.
No entanto, quando se avalia um conjunto de ideias — e não apenas uma isoladamente —, a dimensão mais importante passa a ser a diversidade. Qualquer coleção de ideias pode reunir propostas novas para uns, mas óbvias para outros, ou originais, porém pouco úteis. Ainda assim, um conjunto bastante diverso costuma conter algumas ideias fora da curva, genuinamente originais e com potencial de valor real.
- O adesivo “fracassado” que deu origem ao Post-it
- O videogame abandonado cuja ferramenta interna de comunicação se transformou no Slack
Esses exemplos mostram como ideias inicialmente consideradas impraticáveis podem, depois de refinadas ou recombinadas, se tornar verdadeiras descobertas. Ou seja, a criatividade não depende apenas de quantidade e qualidade de produção, mas também de diversidade: diferentes ideias podem abrir novas linhas de investigação e gerar sementes para outras inovações.
O paradoxo da criatividade individual versus coletiva
Ao ampliar o leque de alternativas, as organizações conseguem evitar que a equipe convirja prematuramente para opções seguras e convencionais, aumentando as chances de surgirem avanços surpreendentes. É justamente nesse ponto que os estudos revelam um paradoxo interessante: individualmente, a IA costuma aumentar a criatividade, sobretudo ao permitir que pessoas menos experientes ou menos criativas produzam mais ideias novas e úteis. Coletivamente, porém, a IA tende a “comprimir” o espaço de ideias, já que muitas pessoas acabam se apoiando em sugestões geradas por ferramentas semelhantes, fazendo com que os resultados convirjam entre si.
Na prática, um resultado típico produzido com assistência de IA costuma ser mais criativo isoladamente, mas a variação do conjunto completo de resultados diminui. Em resumo, mesmo que uma ideia inspirada em IA pareça boa, ela pode acabar sendo parecida com as ideias de todos os outros que também usaram inteligência artificial. Para os gestores, a implicação é significativa: o desafio está em aproveitar os ganhos de produtividade e qualidade trazidos pela IA sem abrir mão da diversidade de ideias que sustenta a inovação de longo prazo.
Como a IA afeta a diversidade de ideias em diferentes áreas
Para entender melhor esse impacto, foram analisados quatro estudos recentes que abrangem domínios criativos distintos: escrita de contos, soluções de economia circular, concursos de legendas de humor e narrativa colaborativa. Apesar dos contextos variados, um padrão se repetiu: a assistência da IA melhorou a qualidade da produção individual, mas restringiu a diversidade coletiva.
No primeiro estudo, os pesquisadores Anil e Oliver examinaram como o acesso à IA influencia o processo criativo e a diversidade da produção em grupo. No experimento, participantes foram convidados a escrever histórias curtas de oito frases — algumas pessoas escreveram totalmente sozinhas, enquanto outras receberam até cinco sementes de história de três frases geradas por um modelo de IA. Avaliadores independentes analisaram a criatividade individual de cada história, e uma análise de texto baseada em IA mediu o grau de similaridade semântica entre os textos produzidos com e sem assistência.
Os resultados confirmaram essa tensão central: a assistência da IA melhorou a novidade das histórias, especialmente entre escritores com nível de criatividade de base mais baixo, medido previamente por um paradigma já existente chamado Divergent Association Task. Em contrapartida, no nível coletivo, a diversidade caiu — as histórias dos grupos assistidos por IA convergiram para estruturas e momentos narrativos mais parecidos entre si, apresentando menos variação do que as produzidas sem IA.
Enquanto os indivíduos se beneficiam da IA, especialmente aqueles que mais enfrentam dificuldades em tarefas criativas, a dependência generalizada da ferramenta corre o risco de estreitar o conjunto coletivo de ideias, resultando em qualidade média maior, porém com menos propostas diferenciadas e fora da curva.
Um segundo estudo, conduzido por Léonard em parceria com quatro colaboradores, reforçou esse padrão em um campo bem diferente. Os participantes foram convidados a propor soluções de economia circular para desafios de sustentabilidade, como o reaproveitamento de materiais residuais. Um grupo formado só por pessoas produziu uma gama ampla de ideias, de propostas convencionais de reciclagem a soluções inusitadas — como tijolos feitos de poeira de fundição e plástico residual, com encaixe semelhante ao de peças de Lego, pensados para reduzir a poluição do ar ligada à construção civil.

Em contrapartida, uma única pessoa trabalhando com apoio de IA frequentemente superou o desempenho do grupo exclusivamente humano nos critérios de qualidade geral, viabilidade estratégica e valor financeiro e ambiental, segundo avaliações independentes. Ainda assim, o grupo sem IA obteve pontuação mais alta em novidade, e foi justamente dele que surgiram as ideias mais incomuns, com maior potencial de gerar avanços. Mais uma vez, a IA elevou o patamar mínimo de qualidade, mas reduziu a variação dos resultados.
Em que etapa a IA reduz a diversidade das ideias
Um terceiro estudo buscou identificar em qual fase do processo criativo esse estreitamento realmente acontece. O pesquisador Kartik, junto com outro colaborador, conduziu um experimento randomizado inspirado no concurso de legendas de cartuns promovido pela The New Yorker, testando se a IA reduzia a diversidade dos resultados durante a geração ou durante a avaliação das ideias. Foram comparadas quatro configurações: apenas humanos; uso de IA só na geração de ideias; geração humana com IA apenas na seleção; e suporte de IA em ambas as etapas.
O estudo constatou que a IA aumentou tanto a quantidade quanto a qualidade média das ideias, com ganhos ainda maiores quando dava suporte simultâneo à geração e à avaliação. No entanto, o efeito sobre a diversidade variou conforme o momento de uso: a IA aplicada na geração de ideias reduziu consistentemente a diversidade, enquanto a IA usada apenas na seleção preservou um nível de variedade comparável ao do trabalho feito exclusivamente por humanos. Essa descoberta sugere que o ponto crítico de atenção para gestores não é simplesmente decidir se usam ou não a IA, mas sim em qual etapa do processo criativo ela deve atuar para não comprometer a diversidade de ideias dentro das equipes.
Com informações de mitsloanreview.com.br.