Quando decidimos mudar algo, costumamos acreditar que estamos, de fato, transformando a realidade. A frase parece óbvia, mas o comportamento humano vai muito além do que a razão consciente consegue explicar. O desejo de mudança, muitas vezes, esconde um movimento inverso ao que se imagina.
Há momentos em que se faz muito barulho, mobilizam-se recursos e energia, apenas para permanecer exatamente no mesmo lugar. Trocamos de parceiro, de país, de emprego. Em alguns casos, investe-se dinheiro e refazem-se estruturas inteiras. Para quê? Para continuar como antes, para não perder algo que se acredita possuir, seja esse algo real ou simbólico.
O mesmo raciocínio vale para as instituições. Troca-se o time, a empresa, o foco de atuação. Ou então o governo, os ministérios, o próprio país. O objetivo, no fundo, costuma ser o mesmo: manter tudo igual.
A origem literária do desejo de mudança
Essa ideia aparece de forma célebre em “O Leopardo”, romance de Lampedusa publicado em 1958, um ano após a morte do autor. Nele, lê-se a frase: “Se queremos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude.” Quem pronuncia essas palavras é o jovem Tancredi Falconeri, dirigindo-se ao tio, o príncipe Don Fabrizio Salina, na Sicília de 1860, em plena época do Risorgimento — o processo de unificação da Itália liderado por Garibaldi.
Tancredi percebe que o fim do antigo regime é inevitável e, por isso, traça sua estratégia: adere à mudança, apoia os revolucionários e se casa com Angelica, filha de um plebeu enriquecido. Dessa forma, a elite sobrevive, preservando privilégios e controle social, ainda que sob uma nova roupagem política.
“Se queremos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude.”
Por que preferimos o conhecido
Subjetiva e socialmente, talvez seja possível afirmar que boa parte das mudanças esconde um desejo profundo de permanecer com aquilo que já se conhece — algo que, por definição, assusta bem menos. Seríamos todos, então, profundamente conservadores? Não se trata de condenar esse desejo de continuidade: preservar o que funciona também é uma forma de sabedoria, e nem toda cautela equivale a medo.
O problema surge quando o susto é grande demais. Em alguns casos, o medo diante do que parece caos leva a um desejo de retorno a um passado — normalmente mítico, que nunca existiu de fato. Muda-se, sim, mas em direção ao passado, em busca de estruturas que pareçam mais sólidas, tradicionais ou potentes.
Os regimes totalitários flertam diretamente com essa lógica. O fascínio autoritário se alimenta da figura de um líder forte e soberano, próximo à imagem de um deus pai. Se esse líder for um pouco cruel e perverso, paradoxalmente, isso pode até transmitir mais segurança, já que ele é, de fato, percebido como forte. Essa liderança mítica continua habitando, até hoje, o inconsciente coletivo.
A opção mais difícil: mudar para a frente
Existe ainda uma terceira possibilidade: mudar na direção do futuro. Trata-se da escolha mais difícil e ousada, pois exige força e coragem — afinal, inventar o novo é tarefa para poucos.
Essa escolha está em jogo em três eleições relevantes: a brasileira; a de Israel, em 27 de outubro; e a dos Estados Unidos, em 3 de novembro. Em cada uma delas, será definido a quem se dará a chave do cofre. Afinal, política é uma aposta em um projeto de vida e em um determinado projeto de país, e a escolha de cada eleitor influencia a vida de todos. Por isso, vale compartilhar essa aposta pessoal.
Uma aposta em liberdade e menos desigualdade
A primeira aposta é em um projeto que permita que cada um exista e seja o que quiser ser — um projeto de liberdade em todas as formas de amor, de família e de crença, com cada pessoa no pleno direito de ser sujeito de si mesma. Aposta-se, assim, em um país em que ninguém precise se armar, prender ou eliminar o outro para se sentir seguro.
Aposta-se também em um país menos desigual, que partilhe oportunidades e dinheiro de forma mais justa. O sonho é de uma nação do futuro, de verdade, construída com ciência, com dados e produzindo riqueza — soberana, e não uma nova colônia que entrega quase tudo, e muito barato. Segundo relatório do FMI, o Brasil deve voltar a ser a oitava economia do mundo e pode, sim, ocupar posição de liderança na nova ordem mundial.
No fim, o desejo de mudança revela muito sobre o que cada sociedade teme perder e sobre o que está disposta a arriscar em nome do futuro. Entre repetir o passado sob nova roupagem e ousar construir algo inédito, a escolha coletiva feita nas urnas, nos próximos meses, dirá qual caminho prevalecerá.
Com informações de pipelinevalor.globo.com.