Mesmo com origens distantes de Nova York — Jackson Pollock nasceu no estado do Wyoming e Lee Krasner era filha de imigrantes ucranianos —, a mostra “Krasner and Pollock: Past Continuous” carrega toda a atmosfera da cidade onde o casal se conheceu e, juntos, transformou os rumos da arte. Afinal, foi ali que ambos construíram uma trajetória artística que, décadas depois, segue sendo revisitada por museus e estudiosos.
Como Pollock costuma ser o nome mais lembrado da dupla, é comum surgir a dúvida: por que não dedicar o espaço inteiro do museu apenas a Krasner, artista de talento inegável? A resposta está justamente na proposta da exposição, que evidencia como as vidas e carreiras dos dois estiveram profundamente entrelaçadas desde o encontro, em 1941. Quatro anos depois, vieram o casamento e a mudança para Springs, em Long Island, onde a casa e o ateliê do casal podem ser visitados até hoje.
O contexto da exposição Krasner e Pollock em Nova York
No início dos anos 50, o Expressionismo Abstrato colocou Nova York no centro do universo artístico mundial, posição que antes pertencia a Paris — reflexo direto do fim da Segunda Guerra Mundial. Nesse cenário, Pollock ganhou destaque como um dos principais representantes do movimento, graças às suas pinturas respingadas, nas quais praticamente não se percebem pinceladas tradicionais. O curador Alfred Barr teria dito que “Pollock é o primeiro artista que faz Picasso parecer antigo”.
A mostra no Met deixa evidente, no entanto, que a relação entre Krasner e Pollock ia muito além da convivência doméstica: era uma conexão pessoal, amorosa e artística que ajudou a consolidar os dois como figuras pioneiras de sua geração. Nos primeiros anos do relacionamento, inclusive, era Krasner quem tinha maior reconhecimento profissional, defendendo com entusiasmo o trabalho do companheiro — que logo conquistaria a crítica especializada com sua técnica inovadora de “drip painting”, os já famosos respingos de tinta.
A trajetória artística de Lee Krasner
Enquanto isso, Krasner seguia caminho próprio, influenciada por Henri Matisse e dedicada a explorar a abstração a partir de seu olhar sobre a natureza e de sua habilidade no uso da cor. A partir de 1953, ela passou a se destacar também por colagens ousadas e vibrantes, que se tornaram parte essencial de sua produção artística.
Chama atenção o fato de que a artista utilizava, como matéria-prima dessas colagens, suas próprias telas não vendidas e desenhos descartados por Pollock. Mais do que uma simples parceria criativa, esse processo de reaproveitamento revelava um diálogo intenso — e, por vezes, tenso — entre a produção dos dois. Pollock morreu cedo, aos 44 anos, em 1956, deixando um legado artístico de grande impacto. Krasner, por sua vez, viveu ainda 28 anos após ficar viúva, consolidando sua própria carreira.
Influências europeias e o espaço dedicado a Pollock
Um dos pontos altos de “Past Continuous” é a sala reservada a artistas europeus que influenciaram o trabalho da dupla — o catálogo da mostra também traz nomes contemporâneos que seguem essa mesma linha, como Mark Bradford e Jadé Fadojutimi. Além disso, a exposição reúne um número expressivo de pinturas de Pollock em um único espaço, algo raro em mostras do artista, o que permite enxergar diferenças sutis entre telas que, à primeira vista, poderiam parecer semelhantes entre si.
Reconhecimento tardio para Lee Krasner
O nome da exposição foi inspirado em uma tela de Krasner, de 1976. Apesar de a história da arte do século 20 ter concentrado atenção principalmente em Pollock, hoje a artista é reconhecida como uma das figuras mais relevantes da arte moderna. Os números da mostra reforçam essa mudança de perspectiva: o Met reuniu 74 telas de Krasner contra 48 de Pollock, evidenciando um reconhecimento tardio, porém mais do que merecido, para a artista.
A exposição permanece em cartaz no Met até 31 de janeiro de 2027, oferecendo ao público a chance de acompanhar, lado a lado, as trajetórias artísticas de um casal que ajudou a redefinir os rumos da arte contemporânea.
Com informações de pipelinevalor.globo.com.