Em novembro, a bolsa de Chicago vai decidir se passa a negociar contratos futuros de computação — uma aposta direta sobre o preço de aluguel dos chips usados para treinar inteligência artificial. Para boa parte de Wall Street, essa pode ser a largada de um novo “petróleo do século 21”. No entanto, antes de comemorar, vale olhar para trás: a história recente dos mercados futuros guarda um episódio que lembra, e muito, os riscos por trás dessa promessa — e ele tem a ver, surpreendentemente, com cebolas.
Os futuros de computação e a lição esquecida da cebola
Em 1955, dois traders, Sam Siegel e Vincent Kosuga, resolveram encurralar o mercado futuro de cebolas nos Estados Unidos. Eles compraram quantidades tão grandes do produto que passaram a controlar praticamente toda a oferta disponível, manipulando os preços a seu favor. O resultado foi um desastre tão grande para os produtores e para o mercado que o Congresso americano acabou proibindo, até hoje, a negociação de contratos futuros de cebola nos Estados Unidos.
Esse episódio é lembrado justamente agora porque ilustra um ponto central sobre qualquer novo mercado futuro: por trás de um ativo aparentemente simples — seja cebola, petróleo ou, agora, capacidade computacional — existe sempre um risco de concentração e manipulação quando poucos agentes controlam a oferta real do bem negociado.
Por que a computação é diferente do petróleo
A comparação entre o aluguel de chips de IA e o petróleo é tentadora, afinal ambos são insumos essenciais para operações em larga escala e despertam o interesse de investidores em busca de novas formas de especulação. Além disso, assim como o petróleo moveu a economia do século 20, a capacidade de processamento para treinar modelos de inteligência artificial vem sendo tratada como o combustível da próxima revolução tecnológica.
Apesar disso, há diferenças importantes. O petróleo é uma commodity física, extraída, estocada e transportada havendo um mercado físico amplo e diversificado por trás dos contratos futuros. Já a computação depende de um número relativamente concentrado de provedores de infraestrutura — grandes empresas de nuvem e fabricantes de chips —, o que pode tornar o mercado mais suscetível a distorções de oferta, algo parecido com o que aconteceu no episódio da cebola em 1955.
A decisão da bolsa de Chicago
É justamente por isso que a decisão da bolsa de Chicago, esperada para novembro, é observada com tanta atenção. Caso os contratos futuros de computação sejam aprovados, investidores passarão a poder apostar diretamente no preço de aluguel dos chips que sustentam o treinamento de sistemas de inteligência artificial — um movimento que, para muitos, representaria a maturidade financeira desse novo setor.
Por outro lado, o precedente histórico serve como alerta. Assim como ocorreu com as cebolas, um mercado concentrado nas mãos de poucos fornecedores de capacidade computacional pode abrir espaço para movimentos especulativos capazes de distorcer preços de forma artificial, prejudicando tanto empresas que dependem desse insumo quanto investidores menos informados.
Em resumo, a expectativa em torno dos futuros de computação mistura entusiasmo genuíno com cautela necessária. Se por um lado o novo instrumento promete abrir caminho para uma forma inédita de investir no boom da inteligência artificial, por outro, a memória do que aconteceu com a cebola em 1955 mostra que nem todo mercado promissor nasce imune aos mesmos riscos que já derrubaram outros antes dele.
Com informações de neofeed.com.br.