Enquanto parte do varejo de móveis migra suas apostas para o ambiente digital, a Lider Interiores segue um caminho diferente. A fabricante mineira de móveis de alto padrão, que completou 80 anos em 2025 e ainda está sob o comando da segunda geração da família fundadora, mantém a loja física como centro de sua operação, sustentando a tese de que o varejo online ainda não substitui a experiência de sentar em uma poltrona, testar um sofá e acompanhar pessoalmente o projeto de uma casa.
“A maior parte do nosso negócio ainda são projetos de casa toda, feitos na loja. Nosso produto é de design autoral e tem maior valor agregado. A tendência do virtual é que as peças menores tenham maior procura e que ele seja uma fonte de captação”, afirma Aurélio Nogueira, CEO da companhia e filho do fundador, João da Mata Nogueira.
Lider Interiores resiste à onda digital do setor de móveis
O movimento da Lider contrasta com o de outras marcas do setor. Embora atuem em nichos diferentes, empresas como Mobly, Tok&Stok e Westwing apostaram fortemente no digital, principalmente durante a pandemia. No entanto, enfrentaram dificuldades nos anos seguintes, acumulando prejuízos que resultaram em reestruturações operacionais — caso da Westwing — ou em recuperação judicial, como ocorreu nas duas marcas do Grupo Toky.
Na Lider, o canal digital responde atualmente por apenas 7% das vendas, com tíquete médio de R$ 12 mil, valor bem inferior aos R$ 28 mil do indicador geral da empresa. As lojas, por sua vez, continuam no centro de uma operação que deve movimentar aproximadamente R$ 420 milhões neste ano, com 20% dos pedidos acima de R$ 500 mil. “Temos projetos de R$ 800 mil a R$ 1,6 milhão”, destaca Nogueira.
Rede de lojas e expansão da marca
A companhia mantém 20 lojas com a bandeira Lider, sendo 16 próprias e quatro operadas por revendedores. São Paulo é a principal praça da marca, seguida por Minas Gerais. Recentemente, a rede reinaugurou a unidade do Lar Center, em São Paulo, e dobrou o tamanho da loja localizada na Gabriel Monteiro da Silva.
“Não conseguimos viver sem a loja física”, resume Nogueira. Além da rede exclusiva, a fabricante trabalha com quase 100 revendedores multimarcas espalhados pelo país, que pretende transformar, aos poucos, em pontos de venda exclusivos. “Nossa proposta para os próximos anos é ampliar para o modelo de revenda plena, com lojas 100% Lider”, explica o executivo.
Sucessão já envolve a terceira geração
Entre móveis soltos e planejados, a Lider também se prepara, sem pressa, para o próximo passo da sucessão familiar. Aurélio Nogueira, de 61 anos, está há dois anos no cargo de CEO e planeja permanecer por mais cinco ou seis anos antes de migrar para o conselho, assim como dois de seus cinco irmãos. Da terceira geração, cinco membros já ocupam cargos estratégicos na empresa.
- Um dos filhos do CEO atua na área de estofados
- Outra filha cuida do novo site, o lider.design
- Sobrinhos estão à frente dos planejados, dos móveis externos e da diretoria comercial
A diretoria comercial, aliás, desponta como possível próxima liderança da companhia, assim como um dos irmãos de Aurélio. Por ora, a hipótese de trazer um executivo de mercado para o posto está descartada. “Tivemos um CEO de fora da família de 2017 a 2023, que foi muito bom para ajustar a nossa gestão, contabilidade e governança corporativa, mas ele não era do nosso setor e sentimos falta de trabalhar mais as vendas, que acabaram caindo”, pondera o empresário.
Entrada de investidores segue descartada
A possibilidade de receber novos sócios investidores também não está nos planos da empresa neste momento. “Aparecem fundos interessados, mas entendemos que, sendo familiares, temos mais liberdade e somos menos pressionados por determinadas ações”, diz Nogueira.
Apesar de estar menos exposta ao risco de crédito dos clientes do que as marcas populares, a Lider sente os efeitos dos juros altos tanto para financiar a produção quanto pelo perfil de seu consumidor, que muitas vezes prefere investir o dinheiro a trocar os móveis de casa quando as taxas estão mais atrativas.
Produção concentrada em Minas Gerais
A fabricação da Lider permanece centralizada em Carmo do Cajuru, no centro-oeste mineiro, cidade onde a empresa foi fundada por João da Mata, falecido em 2019, aos 92 anos. Hoje, a companhia reúne cinco plantas em uma só estrutura, divididas por linhas de produção como sala de jantar, móveis de madeira, estofados, planejados e serralheria voltada à estrutura dos sofás, além de contar com um centro de distribuição próprio.
A empresa ainda mantém entrepostos regionais em São Paulo, Rio de Janeiro, Vitória e Salvador, somando 1,4 mil funcionários na operação — número que inclui motoristas e entregadores, geralmente terceirizados. “Somos bastante verticalizados. Um dos objetivos é controlar o prazo de entrega”, conclui Nogueira.
Com informações de pipelinevalor.globo.com.