A vitória de Lula na reeleição e a persistente desconfiança do mercado financeiro quanto à condução das contas públicas devem produzir, no ano que vem, um cenário de crescimento fraco e juros reais ainda bastante elevados. É essa a leitura do ex-presidente do Banco Central Gustavo Loyola, para quem recuperar a credibilidade fiscal será tarefa difícil mesmo que o governo promova trocas na equipe econômica.
“O resumo para 2027 é uma economia crescendo pouco, à beira da recessão, muito perto disso”, afirma Loyola. “Não apenas porque ele não tem nenhum cacoete na direção do ajuste fiscal, mas também porque vai enfrentar um Congresso no qual estará mais minoritário do que na última legislatura. Não consigo ser otimista.”
Recessão e desconfiança marcam avaliação sobre as contas públicas
Segundo o sócio da Tendências Consultoria Integrada, a própria campanha eleitoral contribuiu para agravar esse quadro, já que o uso da máquina pública para angariar votos resultou em medidas de expansão de gastos. Entre elas, o reajuste do Bolsa Família, a promessa de cheques para microempreendedores individuais (MEIs) e a renúncia fiscal decorrente da proibição das bets.
Por isso, na visão do economista, reverter esse cenário exigirá um esforço bem maior do que simples ajustes pontuais. “Quando você perde credibilidade, a recuperação envolve um esforço muito grande na direção contrária, de ajuste, para que possa haver uma reversão das expectativas. Não adianta o governo vir com medidas paliativas, cosméticas. Isso não vai resolver nada. Vamos ter dificuldades bastante grandes à frente”, diz Loyola.
Alckmin em evidência após discursos de vitória de Lula
Um fator que poderia ajudar a acalmar o mercado seria a indicação de um novo ministro da Fazenda com habilidade política para dialogar com o Congresso. Nesse contexto, ganha relevância o destaque que Lula deu a Geraldo Alckmin nos dois discursos de vitória no domingo — um sinal, segundo Loyola, de que o petista pretende ampliar o protagonismo do vice, o que já alimenta especulações sobre seu nome à frente da pasta. Essa aposta também reflete uma campanha que buscou aproximação com a direita moderada, estratégia que poderia facilitar a negociação com um Congresso mais radicalizado.
Ainda assim, o economista pondera que o apoio político de Alckmin tem limites práticos. “O Alckmin tem alguma credibilidade, tem densidade política, mas é vice, não está com a caneta, não manda. Sem apoio do Lula, ele pode até se queimar no processo”, avalia Loyola, traçando um paralelo com o que ocorreu no governo Dilma Rousseff com o ex-ministro Joaquim Levy, que enfrentou ataques dentro do próprio governo e teve sua atuação esvaziada, além de contribuir para a queda de popularidade da gestão, então acusada de estelionato eleitoral.
Outros nomes cotados para a Fazenda
Além de Alckmin, outros nomes circulam nos bastidores como possíveis candidatos ao Ministério da Fazenda. Entre eles estão:
- Rafael Fonteles, governador reeleito do Piauí, que ganhou força nas discussões internas do PT;
- Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central;
- Os senadores Camilo Santana (CE) e Renan Filho (AL);
- O economista Pérsio Arida, defendido por parte do empresariado.
A permanência de Dario Durigan no cargo também não está totalmente descartada, segundo o levantamento de possibilidades feito por Loyola.
De todo modo, o desafio à frente da pasta tende a ser árduo, independentemente de quem assuma. “Não existe mais medida fácil de ajuste. Todas vão levar a sacrifícios”, resume Loyola, que considera indispensável encerrar o reajuste real do salário mínimo — uma das promessas centrais da campanha de Lula — além de promover uma nova reforma da Previdência. Para ele, elevar impostos sobre os mais ricos, isoladamente, não seria suficiente para equilibrar as contas públicas.
Banco Central deve seguir isolado no combate à inflação
Esse cenário fiscal apertado também restringe a margem de manobra do Banco Central, que, segundo Loyola, continuará tendo que conter sozinho as pressões inflacionárias, sem contar com o suporte da política fiscal. “O BC não vai ter espaço para reduzir os juros. Recai sobre ele o ônus de ter que preservar sozinho a estabilidade da moeda, que passa a sofrer pressões vindas de fora, inclusive”, diz o ex-presidente da autarquia.
Com os juros em patamar elevado, a tendência, segundo o economista, é de aumento nos pedidos de recuperação judicial — quadro que pode ser agravado pela pressão adicional de custos no setor de serviços após o fim da escala 6×1. Já no câmbio, com o dólar em alta, Loyola avalia que setores exportadores, como agronegócio, petróleo e commodities em geral, tendem a ficar mais protegidos diante desse ambiente desafiador para o restante da economia.
Com informações de pipelinevalor.globo.com.