A sucessão familiar é um dos temas mais delicados enfrentados por famílias empresárias ao longo do tempo. Mais cedo ou mais tarde, surge entre os sócios a pergunta inevitável: manter, vender ou consolidar a propriedade do negócio? Não existe uma fórmula única de sucesso, já que cada família define isso à sua maneira. No entanto, há um elemento em comum para garantir tanto a continuidade do empreendimento quanto a harmonia entre os parentes: o alinhamento de visão entre os acionistas familiares. Ter um processo estruturado para conduzir essas discussões e decisões ajuda a manter a união do grupo, independentemente do rumo que for tomado.
A importância da mentalidade aberta na sucessão familiar
Estar disposto a conversar sobre uma eventual venda do negócio familiar já é, por si só, um passo importante para um processo de decisão saudável. À medida que a diversidade dentro do grupo de sócios aumenta, mostrar-se aberto ao debate sobre “manter, vender ou consolidar” — em vez de simplesmente descartar a venda para sempre — sinaliza que os interesses de todos estão sendo levados em conta. Vale lembrar que vender não é, necessariamente, um resultado negativo: em certas circunstâncias, pode ser positivo tanto para a família quanto para o próprio negócio.
Um exemplo ilustra bem essa dinâmica: em um grupo de irmãos sócios, havia um histórico de divisão entre os “de dentro”, que trabalhavam na empresa, e os “de fora”, que não participavam do dia a dia operacional. Com o tempo, cresceu a pressão dos sócios que estavam fora da operação para que se considerasse a venda da companhia. Ao abrir o diálogo, as realidades envolvidas na venda vieram à tona, incluindo o que o processo exigiria e seus impactos sobre a família. Como resultado, o grupo de irmãos se uniu em torno de uma visão de futuro comum, o que permitiu avançar com a continuidade da propriedade para a geração seguinte.
Já em um caso de desfecho menos favorável, uma família cujo negócio atuava em um setor em rápida consolidação se recusou a considerar a venda por respeito ao legado construído. O resultado foi “segurar até o fim”, em meio a uma queda expressiva no valor da empresa, até que a venda se tornou a única alternativa para preservar algum valor residual.
Há ainda o cenário de uma grande família empresária, já na geração de primos, em que vários membros simplesmente queriam seguir caminhos diferentes. Como boa parte do patrimônio individual estava atrelada ao desempenho do negócio familiar, esses parentes desejavam diversificar seus investimentos vendendo sua participação na empresa operacional. As demandas crescentes por retirar mais dinheiro da companhia geravam forte pressão sobre os esforços de crescimento em um mercado de concorrência acirrada. Diante disso, os acionistas criaram um fórum para discutir abertamente seus pontos de vista e chegaram a termos de recompra a um preço justo, permitindo que quem quisesse continuar como guardião do negócio pudesse fazê-lo. Assim, a família conseguiu consolidar a propriedade e, ao mesmo tempo, perpetuar o negócio para a próxima geração. Ao criar um espaço seguro para conversas difíceis e seguir um processo claro, a família conseguiu equilibrar visões concorrentes sem comprometer suas relações.
Como surge a discussão sobre manter, vender ou consolidar
A iniciativa de discutir o tema pode partir de um estímulo interno ou externo. Um exemplo de estímulo externo é quando o CEO recebe uma carta de interesse de um potencial comprador terceiro. Ter um processo definido para lidar com esse tipo de solicitação antes mesmo que ela aconteça ajuda a evitar desgaste desnecessário e reduz o risco de expor o sistema familiar-empresarial aos riscos associados a esse tipo de diálogo. O grupo de sócios pode, por exemplo, fornecer ao conselho de administração diretrizes claras sobre em que condições consideraria uma venda. Com isso, o CEO fica em posição de compartilhar a consulta com o conselho, que então decide, em nome dos acionistas, se a proposta merece ser aprofundada. Dessa forma, o diálogo fica contido no nível do conselho quando a proposta não se encaixa nas diretrizes estabelecidas, reduzindo a ansiedade dentro da família diante de rumores sobre uma possível venda. Quando a proposta é considerada relevante, o grupo de sócios pode então ser envolvido de forma estruturada.
Já o estímulo interno pode partir do próprio grupo de acionistas ou surgir de um processo de planejamento estratégico conduzido pela gestão. Esse tipo de estímulo abre espaço para discussões sem urgência sobre a venda do negócio. Se o debate levar à conclusão de que vender faz mais sentido do que manter a propriedade familiar, as opções de venda podem ser avaliadas de forma estruturada, com apoio de profissionais especializados. Por outro lado, o resultado também pode ser a reafirmação do propósito de continuidade da família no negócio, reforçando o compromisso com os investimentos necessários para executar a estratégia. Seja qual for a origem do estímulo, o ponto-chave é manter clareza, em todo o sistema familiar-empresarial, sobre as intenções e expectativas do grupo de sócios.
Visão compartilhada orienta as decisões sobre o futuro do negócio
Ter a visão de futuro da família bem definida e revisada periodicamente faz toda a diferença na hora de discutir e decidir entre manter, vender ou consolidar. Uma visão compartilhada dá contexto ao diálogo, serve como referência para avaliar as opções disponíveis e cria um ambiente mais aberto para discussões e alternativas criativas. Declarações diretas sobre o que a família deseja ou pretende oferecem uma base essencial para o debate:
- A preferência da família é manter a propriedade do negócio, mas sem descartar totalmente a possibilidade de venda.
- A intenção é manter uma parcela significativa do capital da família unida, investindo e administrando-a em conjunto, seja qual for a decisão sobre o negócio.
- Além de um retorno financeiro razoável, espera-se que o negócio continue proporcionando oportunidades de trabalho conjunto entre os sócios e, para os interessados e qualificados, também na operação.
- Será oferecida aos sócios individuais a opção de manter ou vender sua participação, com um mecanismo de consolidação de propriedade que não coloque o negócio em risco quando algum deles preferir liquidez.
Princípios que orientam o processo de decisão
Estabelecer princípios orientadores antes dessas conversas ajuda os participantes a se engajarem de forma produtiva, mantém as reuniões focadas e reduz o risco de um desfecho que divida a família. Entre os princípios que costumam funcionar bem nesse tipo de discussão estão:
- Falar com uma só voz ao conselho e à gestão.
- Reconhecer e respeitar pontos de vista diferentes.
- Entender que é preciso ceder para receber.
- Reconhecer e cuidar coletivamente das necessidades e interesses de cada membro da família.
Etapas essenciais para conduzir o processo
A discussão sobre manter, vender ou consolidar costuma ser carregada de emoção e de pontos de vista diversos. Por isso, para chegar a um desfecho positivo, é fundamental que todos os envolvidos entendam claramente seus papéis e responsabilidades: quem tem voz, quem tem voto, como a decisão será tomada — por maioria simples, maioria qualificada, consenso, entre outros critérios — e quem tem acesso a quais informações e em que momento. Para que essa clareza exista, é necessário que todos compreendam o que os documentos de governança familiar e empresarial estabelecem sobre esses pontos. Educar — ou reeducar — continuamente os membros da família sobre seu papel nesse processo é um desafio constante.
Quando os documentos de governança não tratam adequadamente de quem decide e como decide, é preciso avançar na estruturação desses instrumentos. Grupos de acionistas maiores, por exemplo, podem optar por formar um comitê ou acionar seu Conselho de Família ou Conselho de Sócios para dialogar com o conselho de administração e a gestão sobre os temas ligados a manter, vender ou consolidar, elaborando uma recomendação a ser avaliada pelo grupo de sócios como um todo. A Perinni Advisory recomenda que, em muitos casos, a atualização da governança familiar seja o primeiro passo para que esse processo decisório ocorra de forma equilibrada e sem comprometer os laços entre os membros da família.
Com informações de thefbcg.com.