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Recuperação judicial da Marabraz: disputa entre pais e filhos agravou crise — entenda os bastidores

Recuperação judicial da Marabraz: disputa entre pais e filhos agravou crise — entenda os bastidores
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A varejista de móveis e eletrodomésticos Marabraz deu entrada em um pedido de recuperação judicial no sábado, dia 15, na 3.ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais da Comarca da Capital do Estado de São Paulo. A petição aponta R$ 140 milhões em dívidas, a maior parte originada em bancos e em compromissos com fornecedores. Por trás dos números, porém, há um capítulo pouco comum: uma briga familiar que teria contribuído diretamente para o agravamento da crise que culminou na recuperação judicial da Marabraz.

Procurada, a direção da empresa afirmou que a companhia segue operando normalmente, com as lojas abertas, e reforçou o compromisso com a transparência durante o processo. “O processo terá como prioridades a preservação de empregos e manutenção das relações construídas ao longo de sua história com clientes, fornecedores e parceiros”, diz o comunicado assinado por Nasser Fares, diretor do grupo.

O conflito por trás da recuperação judicial da Marabraz

Nasser e seu irmão Jamel, filhos diretos do fundador da rede e atuais diretores da Marabraz, tentam retomar o controle de uma holding batizada de “LP Administradora de Bens”. Segundo o pedido de recuperação judicial, essa sociedade concentra imóveis utilizados como garantia em operações de crédito da varejista — peças consideradas essenciais para viabilizar financiamentos.

Atualmente, no entanto, a LP está sob comando dos filhos e sobrinhos dos dois executivos, o que, de acordo com a empresa, teria dificultado o acesso a recursos para capital de giro.

Do outro lado, os herdeiros e sobrinhos — hoje sócios da LP Administradora — rebatem a versão de que a crise de crédito da Marabraz tenha relação com a holding imobiliária.

“As companhias são distintas, com estruturas societárias, administrações, patrimônios e responsabilidades próprias. A LP não participa da gestão da varejista e, portanto, não é legítima a tentativa de atribuir à companhia responsabilidade pelas decisões administrativas, financeiras ou operacionais que levaram ao atual cenário da Marabraz”, afirma a defesa dos herdeiros.

De imigrante libanês a disputa entre gerações

A trajetória da Marabraz remonta a 1965, quando o imigrante libanês Abdul Hamid Mohamad Fares fundou uma loja de móveis em São Paulo. Com o tempo, o negócio foi passado de pai para filho e, nos anos 90, viveu seu auge, somando 135 lojas distribuídas pela região metropolitana de São Paulo, Baixada Santista, Vale do Paraíba e interior do Estado.

As primeiras tensões societárias começaram a se desenhar em 2006, quando os irmãos Fares, já à frente da empresa, resolveram criar uma holding para administrar o patrimônio familiar e os dividendos recebidos pelas Lojas Marabraz — justamente a LP Administradora.

A trajetória da Marabraz remonta a 1965, quando o imigrante libanês Abdul…

Em meados de 2011, os irmãos transferiram aos próprios filhos as cotas que detinham na holding. É a partir desse ponto que as duas versões da história se separam.

Segundo os irmãos Fares, no processo judicial que discute o controle da LP, a transferência teria sido uma tentativa de blindar o patrimônio da família contra dívidas da Marabraz — sobretudo as trabalhistas — e também de driblar o Fisco. Dessa forma, teria ocorrido uma venda “simulada” de cotas aos herdeiros, com os verdadeiros donos permanecendo sendo Nasser e Jamel. Esse arranjo, segundo a defesa deles, só mudou em 2022, quando os filhos teriam decidido assumir de fato o controle que já era deles apenas no papel.

Os irmãos Fares sustentam ainda que a LP Administradora reúne imóveis adquiridos com recursos da própria Marabraz e posteriormente alugados à rede de lojas. Por isso, acusam os herdeiros de dilapidar esse patrimônio — tido como essencial para a saúde financeira da varejista. O processo chega a mencionar “retiradas anuais milionárias” destinadas a “sustentar um padrão de vida de luxo extremo”.

Já os herdeiros defendem a legitimidade da transferência de cotas, alegando que os pais buscam anular o negócio por vingança, em razão de desavenças familiares, e que a sociedade e os imóveis não têm qualquer relação com as operações da Marabraz há pelo menos 13 anos.

Justiça já se pronunciou, mas disputa segue aberta

Até o momento, os filhos mantiveram as participações nas sociedades. Em acórdão datado de setembro do ano passado, o tribunal entendeu que os irmãos Nasser e Jamel não poderiam se valer da própria manobra fraudulenta na transferência de cotas aos herdeiros para pedir a anulação do negócio.

“Na presente ação, os autores reconhecem que, ao transferirem as suas quotas aos filhos, fizeram-no para blindar seu patrimônio, em detrimento da Fazenda Pública, admitindo que agiram mediante fraude (contra credores ou à execução)”, registrou o relator do caso.

O processo, no entanto, ainda não chegou ao fim, e os irmãos Fares podem recorrer da decisão.

A LP Administradora, por sua vez, defende que a Marabraz possui patrimônio suficiente para servir de garantia na obtenção de crédito, sem necessidade de recorrer aos imóveis hoje administrados pelos herdeiros. “Se a Marabraz entrou em estado recuperacional, trata-se de situação gerada pelos atos e medidas de insucesso tomadas por sua própria administração”, declarou a holding.

O processo, no entanto, ainda não chegou ao fim, e os irmãos…O processo, no entanto, ainda não chegou ao fim, e os irmãos…O processo, no entanto, ainda não chegou ao fim, e os irmãos…

Apesar disso, a Marabraz sustenta, no próprio pedido de recuperação judicial, que os imóveis da LP funcionavam como garantia imobiliária indispensável para a obtenção de financiamentos, dos quais a companhia é altamente dependente. Com Nasser e Jamel afastados do controle da holding dona desses imóveis — mesmo sendo eles os responsáveis pela operação da varejista —, o acesso ao crédito teria se fechado.

“Como consequência, operações que historicamente eram renovadas com relativa previsibilidade passaram a exigir negociações significativamente mais complexas”, aponta a empresa. “As instituições financeiras passaram a demandar novas garantias, reduziram limites de crédito, elevaram o custo das operações e, em diversos casos, deixaram de renovar linhas indispensáveis ao capital de giro.”

Reestruturação deve ser complexa, avalia especialista

Cláudio Santos, sócio da consultoria Galeazzi — especializada em ajudar empresas em dificuldades a se reerguerem — tem longa experiência em processos de reestruturação. Em sua avaliação, no entanto, um turnaround para a Marabraz tende a ser bastante complexo.

Segundo ele, a disputa dentro da família fundadora pode ter restringido ainda mais as fontes de financiamento, mas as perspectivas para a companhia já vinham se deteriorando havia algum tempo, independentemente do conflito familiar.

De acordo com o especialista, a forte migração para o comércio eletrônico na última década tornou o modelo de lojas físicas da Marabraz cada vez mais ultrapassado, enquanto a concorrência com grandes players digitais pressionou as margens de todo o setor varejista. Some-se a isso os juros elevados, que encarecem o crédito e esfriam o consumo — um cenário que, combinado à briga societária em torno da LP Administradora, ajuda a explicar por que a crise se tornou insustentável a ponto de levar a companhia à recuperação judicial.

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