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Reestruturação de empresas: conheça quem tira os “gatos do telhado” na Americanas e na Oi

Reestruturação de empresas: conheça quem tira os "gatos do telhado" na Americanas e na Oi
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“O gato subiu no telhado.” A frase, dita pela CFO Camille Faria durante a madrugada da assembleia de credores da Americanas, tinha, naquele momento, um sentido literal: dois de seus 17 gatos haviam fugido para o telhado de sua casa e precisavam ser resgatados antes de uma possível queda. No entanto, a expressão também funciona como uma boa metáfora para o trabalho que ela exerce havia anos — o de evitar que empresas em dificuldades financeiras entrem em colapso. A Americanas havia entrado em recuperação judicial em 2023, depois de descobrir uma fraude cometida pela antiga administração, com uma dívida que somava R$ 43 bilhões.

No fim, tanto os bichanos quanto a companhia tiveram um desfecho positivo. A Americanas não só obteve aprovação do plano de recuperação como já caminha para encerrar o processo: em março, protocolou o pedido de encerramento da recuperação judicial.

O desafio de assumir a reestruturação da Americanas

Entrar na varejista carioca não foi uma decisão trivial. Muitos executivos teriam recusado esse convite, feito apenas um mês depois da descoberta da fraude, justamente o momento em que a empresa lidava com credores enraivecidos, fornecedores frustrados e funcionários apreensivos. Ainda assim, Faria topou o desafio e, nos últimos anos, passou a ser chamada por pares do mercado de “a CFO oficial das reestruturações”.

Formada em Engenharia Química, ela migrou cedo para a área financeira, passando por Banco Pactual e Embratel antes de assumir a presidência da Multiner, empresa do setor de energia com usinas eólicas e térmicas. Foi ali que viveu seu primeiro processo de turnaround. “Ajustei a empresa e fiz a venda, foi aí que me apaixonei por reestruturação”, conta. A Multiner acabou vendida ao grupo Bolognesi em 2012.

Depois, sua experiência em finanças corporativas a levou para bancos de investimento, com passagens pelo Morgan Stanley, Bradesco BBI e Bank of America. “Após 10 anos nesse setor, eu vinha pensando muito na minha carreira. Quando você atua em banco de investimento e vai ficando mais sênior, fica cada vez mais comercial e menos mão na massa. Mas como a primeira metade da minha carreira sempre foi fazendo isso, eu sentia falta de estar ali na linha de frente”, relata.

Da Oi à Americanas: trajetória na reestruturação de empresas

O primeiro pedido de recuperação judicial da Oi, em 2016, abriu uma nova porta. O caso envolvia um plano complexo, com a separação entre a rede de fibra óptica e a de cobre, além da venda de diversos ativos para pagamento dos credores. Foi a chance que Faria viu para voltar a atuar diretamente nas operações, somando a isso sua bagagem de M&A construída nos bancos.

“A Oi já era minha cliente porque cobria telecom nos bancos de investimento e já tinha atuado em empresas do setor como Embratel e TIM. Quando o Rodrigo Abreu me disse que estava procurando uma CFO, em 2019, eu disse que tinha interesse e ele respondeu que eu era o primeiro nome da lista”, conta.

Mesmo assim, ao assumir a diretoria de relações com investidores da Oi, ela ouviu questionamentos de executivos do mercado sobre a decisão de trocar a carreira no mercado financeiro por um desafio tão espinhoso. “Onde você estava com a cabeça? Era a primeira pergunta que eu escutava”, lembra.

Na Oi, o mandato ia além do financeiro — havia também uma dimensão operacional, já que a companhia enfrentava tecnologia de cobre obsoleta e dificuldades em capturar sinergias de aquisições anteriores, sobretudo após a compra da Brasil Telecom, que gerou contingências. Entre as maiores dificuldades daquele processo, segundo ela, estava alinhar interesses de credores muito diferentes entre si, que iam de bancos nacionais a bondholders e agências de fomento internacionais, cada um com recuperações de crédito distintas dentro do plano, que ainda passava por um aditivo.

Com a venda de ativos como a operação móvel, torres e data centers, a Oi se transformou em uma espécie de corporation, assumida pelos credores e conduzida por um conselho com membros independentes de ampla experiência de mercado. Faria deixou a companhia em 2021 para se tornar CFO da TIM e, depois, seguiu para o varejo.

Americanas e Oi: comparação entre dois processos de recuperação judicial

Para a executiva, as diferenças entre os dois casos ajudam a explicar os rumos distintos que cada companhia tomou. “A Oi era uma companhia sem controlador, mas com muitos ativos para vender, já a Americanas tinha acionistas de referência com dinheiro, tanto que fizeram um aporte de R$ 12 bilhões, mas quase não tinha ativos para oferecer de garantia para os credores e levantar dinheiro novo para dar suporte à empresa durante a crise”, compara.

Na Americanas, a negociação do plano de recuperação judicial se concentrou nos principais bancos credores, que converteram parte da dívida em participação acionária (equity). Segundo Faria, a rapidez dessa execução, somada ao aporte de capital, foi decisiva para que a empresa seguisse um caminho diferente do da telecom. Enquanto a Americanas reduziu sua dívida de R$ 50 bilhões para R$ 1,9 bilhão e voltou a acessar crédito, a Oi teve a falência decretada neste ano.

Outro ponto de diferença, segundo ela, foi a divisão de responsabilidades: na Americanas, um time liderado pelo CEO Leonardo Coelho ficou focado na operação, enquanto Faria se dedicou à renegociação da dívida — ambos reportando-se diretamente ao conselho. Ela também nota uma mudança cultural ao longo dos últimos processos: os bancos, historicamente resistentes, passaram a aceitar conversões parciais de dívida em ações. “Isso possibilitou termos mais casos de sucesso como em Raízen”, avalia.

Reestruturação de empresas em alta no cenário econômico

Faria chegou a ser sondada para integrar o grupo de reestruturação da Braskem e teve uma breve passagem pela Oncoclínicas, processos sobre os quais prefere não comentar. Para ela, o aumento de casos de recuperação judicial e extrajudicial reflete, em parte, a ampla liquidez do período da pandemia, quando a taxa de juros caiu a 2% e muitas empresas levantaram capital, principalmente via dívida. Quando os juros voltaram a subir, batendo 15%, boa parte dessas companhias não tinha uma estrutura de capital adequada para sustentar o novo cenário.

“Vimos muita companhia fazer besteira no plano de expansão. Aí você tem uma dívida crescente no balanço e não tem Ebitda adicional para pagar os juros da dívida”, resume.

Além disso, ela cita setores que passaram por disrupções importantes, como o varejo tradicional, pressionado pela concorrência digital — um cenário que afeta grupos como Marabraz e Casas Bahia. Por isso, a executiva não enxerga um alívio rápido nesse quadro. “Ainda que a trajetória de queda da taxa de juros seja acentuada, ninguém está esperado uma taxa Selic abaixo de 10% no curto prazo e há um estoque de companhias com alavancagem financeira elevada, que vão precisar se reorganizar de alguma forma”, diz.

Nova fase: Camille Faria cria sua própria gestora

Diante desse cenário, Faria decidiu iniciar uma terceira fase na carreira e criou sua própria gestora, a Althia, que vai assessorar empresas em crise tanto na gestão quanto na renegociação de passivos. “Vou poder me concentrar mais na parte da estratégia de renegociação da dívida e da estrutura de capital da companhia, que é onde tenho diferencial, e ficar menos no dia a dia de CFO”, explica. O trabalho de consultoria deve incluir desde a escolha de executivos para tocar a operação até a busca de capital em alguns casos, por meio de club deals.

Entre tirar os gatos — reais e metafóricos — do telhado, Faria também encontra tempo para outros bichos de estimação. São quatro filhos, sendo dois enteados, seis cachorros, três jabutis, uma tartaruga d’água e alguns peixes. “São esses meus filhos que me acalmam nas horas de folga”, diz ela.

Com informações de pipelinevalor.globo.com.

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