Longe das planilhas e das reuniões tensas que marcam o dia a dia de quem lida com empresas em dificuldades financeiras, o mineiro Renato Carvalho encontra sossego nas águas de Tatajuba, no Ceará, onde pratica kitesurfe como hobby. O destino, discreto se comparado a badalados como Preá e Cumbuca, combina com o estilo reservado do fundador da assessoria financeira Laplace. Mas o mar tranquilo contrasta com o cenário turbulento que ele enfrenta no mundo corporativo, marcado atualmente por uma onda intensa de reestruturação de empresas.
A pior crise de reestruturação desde 2014-2015
Carvalho começou sua trajetória no setor como sócio da Angra Partners, uma das pioneiras no investimento em ativos ilíquidos e em processos de reestruturação no Brasil. Há 16 anos, fundou a Laplace, e, segundo ele, há muito tempo não via um quadro tão crítico para as empresas brasileiras. “A onda atual de reestruturação de empresas é a pior desde aquela provocada pela recessão econômico em 2014 e 2015”, afirma.
Presidente do conselho da Casas Bahia e com passagens por boards de companhias como Brasil Telecom e Metrô Rio, o executivo aponta o varejo como um dos setores mais afetados pela alta taxa de juros. Isso porque o cenário impacta não apenas o endividamento das empresas, mas também reduz a disposição das famílias para consumir.
Só neste ano, grandes nomes do varejo, como Casas Bahia, GPA, Marabraz e redes de restaurantes como Havanna e Habib’s, recorreram à recuperação judicial. Além do varejo, o agronegócio também está sob forte pressão e responde por cerca de 30% dos pedidos de recuperação judicial no país. Nesse setor, além do cenário macroeconômico desfavorável, a queda global nos preços das commodities tem penalizado as companhias.
Agronegócio e energia sentem o peso da crise
De acordo com Carvalho, o aumento da área plantada nos últimos anos gerou excesso de oferta, pressionando os preços para baixo. “Houve um aumento de investimento em área plantada e isso criou excesso de oferta, o que trouxe uma pressão de baixa para os preços nos últimos dois anos”, explica. A expectativa é de que o cenário permaneça desafiador pelos próximos dois anos, já que os efeitos climáticos do El Niño ainda podem comprometer safras futuras, como a de soja.
O setor de energia também enfrenta dificuldades, em grande parte ligadas à regulação. Empresas de geração distribuída lidam com o chamado curtailment — redução da geração determinada pelo operador — e com o aumento dos custos de modulação, cobrança relacionada à curva de consumo de energia. Formado em engenharia mecatrônica, Carvalho enxerga espaço para consolidação entre as empresas do setor, mas pondera que mudanças regulatórias seriam igualmente importantes. “Ali você pode ter uma solução de mercado, com a consolidação das empresas do setor, mas seria interessante ter uma mudança regulatória também”, afirma.
Avanços no mercado de reestruturação
Apesar do cenário adverso, Carvalho observa sinais positivos no mercado brasileiro de reestruturação. Um deles é a expansão dos fundos de special situations, que passaram a oferecer recursos a empresas em dificuldades financeiras. Outro avanço é a maior disposição dos empresários em recorrer a instrumentos como a recuperação judicial e a extrajudicial, antes vistos com receio.
No passado, as companhias costumavam demorar para buscar proteção contra a execução de dívidas e para negociar com credores. Esse receio, segundo ele, vem diminuindo à medida que os empresários percebem que um processo de reestruturação bem conduzido pode, na verdade, favorecer a recuperação dos créditos.
“O principal problema antes era que as empresas demoravam muito para usar esses instrumentos. Mas os empresários já começam a se sentir menos envergonhados em pedir uma cautelar para se proteger de execução de dívidas e renegociar com os credores, porque, no final, um processo organizado é o melhor para a recuperação dos créditos”, diz Carvalho.
O case da usina Santa Terezinha
Entre os projetos conduzidos pela Laplace, Carvalho destaca a atuação junto à usina Santa Terezinha, maior produtora de açúcar do Paraná. Em 2019, a companhia renegociou R$ 4,6 bilhões em dívidas com bancos por meio de um processo de recuperação judicial, concluído em março de 2024. Durante a reestruturação, a empresa manteve seus investimentos e hoje apresenta alavancagem financeira de 1,2 vez.
Para Carvalho, o sucesso da recuperação esteve ligado à decisão de entrar com o pedido no momento certo, além da transparência adotada e das mudanças implementadas na governança da companhia. “Eles conseguiram criar credibilidade, porque deram um passo na hora certa ao entrar com pedido de recuperação judicial e foram muito transparentes e mudaram a governança”, afirma.
Bancos, créditos e novas frentes de atuação
A postura dos bancos nesses processos também passou por mudanças. Mais dispostas a vender créditos de empresas em dificuldade, as instituições financeiras abriram caminho para o crescimento de gestoras especializadas nesse tipo de ativo. Nesse contexto, a Laplace mantém R$ 600 milhões em um fundo de special situations voltado ao agronegócio, setor em que já participou das reestruturações da Kepler Weber e da Terra Santa.
A estratégia da empresa envolve a compra de créditos inadimplidos e a concessão de financiamento debtor-in-possession (DIP), modalidade destinada a empresas em recuperação judicial, com cheques que variam de R$ 5 milhões a R$ 30 milhões por operação. A Laplace também pretende atuar na gestão de créditos para bancos envolvidos em processos de reestruturação, modelo semelhante ao adotado pela Geribá no caso da Alliança e pela Mapa Capital em Casas Bahia.
No campo da assessoria financeira, a Laplace já participou de operações relevantes, como as privatizações da Eletrobras e da Sabesp, além da compra da Boa Vista Serviços pela Equifax. Esse conjunto de atuações reforça a trajetória da empresa como uma das referências no segmento de reestruturação de empresas no país, em um momento em que o tema ganha cada vez mais protagonismo no cenário corporativo brasileiro.
Com informações de pipelinevalor.globo.com.