Reality shows e programas de auditório parecem sugerir que o sonho de se tornar milionário nunca esteve tão presente — justamente numa época em que um milhão de dólares já não garante a ninguém o status de “rico”. No entanto, entre famílias empresárias, a riqueza familiar está longe de ser uma bênção simples. Isso porque os donos de negócios costumam ter até 75% do seu patrimônio líquido concentrado na própria empresa. Como resumiu um empresário: “Toda riqueza é papel — mas uma você pode dobrar e guardar no bolso, e a outra você nem consegue tocar.”
Além de ser um ativo pouco líquido, uma empresa saudável e em crescimento exige investimentos constantes, disputando espaço com a própria família pelos recursos financeiros disponíveis. Por isso, muitas famílias empresárias costumam dizer: “Somos ricos em negócio, mas pobres em caixa.” Ainda assim, como o negócio é visto como o “ganso dos ovos de ouro” da família, ele acaba virando a prioridade financeira número um. “Antes de enriquecer a família”, explicou um empresário, “queremos enriquecer a empresa.”
Por que a riqueza familiar fica presa no negócio
Existem outros motivos para que a riqueza familiar permaneça concentrada na empresa. Algumas famílias temem o risco do próprio negócio e adotam uma postura financeiramente tão conservadora que acabam supercapitalizando a companhia, aceitando retornos pouco superiores aos de títulos de renda fixa. Outras famílias temem o efeito da riqueza sobre cônjuges, filhos e netos — o receio é que os familiares se tornem “mimados”, voltados ao consumo em vez da produtividade, ou acomodados em vez de úteis.
Um exemplo ilustra bem esse dilema: quando o fundador de uma empresa familiar apareceu em uma lista dos mais ricos de sua cidade, ele negou publicamente o número divulgado pelo jornal. Em particular, porém, admitiu a fortuna, mas reclamou: “Agora que minha esposa sabe o quanto somos ricos, o que vai impedi-la de gastar o que quiser?” Ele tinha o dinheiro, mas não queria uma vida familiar dominada pelo consumo. Seu desejo era que os filhos escapassem dos males da “afluenza” e encontrassem realização usando inteligência e energia para superar obstáculos, resolver problemas, construir e crescer.
Outro caso emblemático é o de um fundador extremamente bem-sucedido, prestes a completar 80 anos. Figurando entre os americanos mais ricos da lista Forbes 400, ele literalmente tinha tudo o que o dinheiro poderia comprar — mas seguia trabalhando. “Negócio é um problema atrás do outro”, costumava dizer, “mas, por sorte, eu amo problemas.” Para ele, o sentido da vida não estava na riqueza, e sim em desenvolver soluções.
As escolhas limitadas diante da riqueza familiar
O verdadeiro desafio da riqueza está em usá-la bem, a serviço dos esforços da família para proporcionar não apenas “a boa vida”, mas ajudar cada membro a “viver bem a vida”. Embora pareçam infinitas, as opções do que fazer com a riqueza se resumem a apenas três: investir, garantir segurança ou consumir. Como não é possível levá-la para além da vida, a riqueza precisa, de alguma forma, ser destinada — e aqui também as alternativas são limitadas: gastar, perder, doar a familiares e amigos, fazer doações filantrópicas ou pagar impostos.
Para muitas famílias empresárias, o próprio negócio representa a oportunidade de investir naquilo que conhecem bem. Com frequência, essas famílias mantêm carteiras de investimento pouco diversificadas, já que aplicações fora da empresa parecem mais arriscadas e com retorno potencial inferior ao que conseguem obter de forma privada. Além disso, existe o receio de perder controle: se a riqueza não estiver resguardada dentro da empresa familiar, ela tende a se dissipar — seja por investimentos pouco criteriosos, seja pelo consumo pessoal.
- O consumo costuma ser encarado como o maior risco para a riqueza familiar.
- Estilos de vida marcados pelo lazer excessivo são vistos com receio, associados à decadência e à degradação de valores.
- Muitas famílias simplesmente evitam reconhecer a própria riqueza, nem sequer discutindo o tema entre seus membros.
Por que falar sobre riqueza familiar nas reuniões de família
Defende-se que o tema da riqueza seja tratado abertamente nas reuniões de família. Ao tentar “proteger” os familiares da riqueza, os pais acabam deixando de prepará-los para compreendê-la, administrá-la ou utilizá-la de forma eficaz. No longo prazo, os riscos de evitar essa conversa são muito maiores do que os de enfrentá-la.
Para que essa conversa seja produtiva, no entanto, ela precisa vir precedida da clarificação da missão, dos objetivos e dos valores da família. Afinal, a riqueza e seus usos só fazem sentido quando compreendidos à luz de como devem servir aos propósitos de vida da família. Para manter a riqueza em perspectiva, é preciso enxergá-la como uma serventia a objetivos e valores importantes — e ela só cumprirá bem esse papel se tais objetivos e valores estiverem claros, articulados e acordados entre todos.
“Getting and spending we lay waste our powers” — “Ganhando e gastando, desperdiçamos nossas forças”, como observou um poeta.
Quando não é colocada a serviço dos objetivos da família, a riqueza pode se tornar uma senhora cruel, escravizando quem a possui. As empresas familiares, por outro lado, oferecem os meios para construir riqueza e colocá-la para trabalhar. O sucesso traz seus próprios problemas, mas eles podem ser resolvidos por meio do compromisso da família em usar a riqueza com sabedoria — nos negócios, nos investimentos, na vida e na filantropia —, definindo metas claras e perseguindo-as de forma disciplinada e responsável.
Com informações de thefbcg.com.