A chegada da inteligência artificial agêntica e o avanço da computação quântica estão redesenhando os pilares da confiança nas organizações financeiras. De um lado, agentes de IA já não se limitam a responder perguntas: eles interpretam objetivos, escolhem caminhos, acionam ferramentas e executam ações sozinhos. De outro, a criptografia de chave pública que sustenta praticamente toda a internet se apoia em problemas matemáticos que, em alguns anos, um computador quântico suficientemente avançado poderá resolver. A segurança pós-quântica surge, assim, como um dos temas mais urgentes para quem lida com dados sensíveis e sistemas críticos.
Embora pareçam questões distintas, as duas mudanças atacam o mesmo ativo: a confiança, considerada o principal patrimônio de qualquer instituição, sobretudo das financeiras. Um tema trata de delegação — quem pode agir em nome de quem — e o outro trata de tempo — por quanto tempo uma informação protegida hoje continuará segura. Ambos, porém, exigem a mesma postura organizacional: saber exatamente o que se tem, quem está agindo e ter capacidade de reagir rapidamente diante de mudanças.
Os riscos de segurança trazidos pela era agêntica
A era agêntica traz ganhos evidentes de produtividade, velocidade e qualidade, mas também provoca uma ruptura importante: o risco deixa de estar concentrado apenas no conteúdo gerado pela IA e passa a envolver as ações que ela é capaz de executar. Uma resposta equivocada de um assistente pode levar a uma decisão inadequada; já um agente com acesso a dados, APIs e sistemas corporativos pode transformar essa mesma resposta em uma ação concreta, com consequências reais.
A McKinsey & Company resume essa transformação de forma direta: conceder poder de ação a um agente não é simplesmente ativar uma funcionalidade, mas sim transferir alçada decisória. Dessa forma, a pergunta deixa de ser apenas se o modelo é suficientemente preciso e passa a incluir quem responde quando o sistema age por conta própria.
Isso exige respostas claras para perguntas fundamentais: qual é a finalidade do agente? Quem responde por ele? A quais dados e ferramentas ele pode ter acesso? Quais ações pode executar sem aprovação prévia? Como seu comportamento será monitorado? E, principalmente, como interromper ou reverter uma operação inadequada?
Especialistas e organizações como o OWASP, referência global em segurança de aplicações, apontam os principais riscos dessa nova realidade:
- Poder de ação excessivo (Excessive Agency): ocorre quando um agente de IA tem mais capacidade de agir do que a tarefa exige, seja por funcionalidades, permissões ou autonomia além do necessário;
- Injeção de Prompt (Prompt Injection): acontece quando instruções maliciosas, inseridas diretamente pelo usuário ou escondidas em conteúdos processados pelo agente, como e-mails, documentos ou páginas web, levam o modelo a ignorar suas instruções originais e agir a favor do atacante;
- Ataques Adversariais (Adversarial Attacks): manipulações deliberadas das entradas, dos dados de treinamento ou do próprio modelo, muitas vezes imperceptíveis para humanos, que induzem um sistema de IA a errar de forma controlada pelo atacante — seja classificando incorretamente, vazando informações ou tomando decisões indevidas;
- Envenenamento de Dados (Data Poisoning): ocorre quando um atacante adultera os dados usados para treinar, ajustar ou alimentar um modelo de IA, incluindo as bases de conhecimento consultadas pelos agentes, introduzindo vieses, vulnerabilidades ou comportamentos ocultos que podem se propagar para todos os agentes que dependem da mesma fonte.
O Gartner incluiu deepfakes, comprometimento de aplicações de IA, prompt injection e riscos na cadeia de suprimentos de software entre as ameaças críticas de seu ThreatScape 2026–2027. Ou seja, a superfície de ataque já inclui agentes desenvolvidos internamente, integrações de terceiros e aplicações corporativas de IA com acesso a dados e credenciais sensíveis.
Como as empresas podem se proteger na era agêntica
Diante desse cenário, a defesa precisa ser arquitetural: separar instruções confiáveis de conteúdo externo, isolar contextos, validar entradas e saídas e limitar as ferramentas que cada agente pode acionar. Além disso, operações privilegiadas, críticas ou irreversíveis devem exigir verificações adicionais ou aprovação humana antes de serem executadas.
Nesse contexto, identidade e acesso passam a ocupar um papel central. Cada agente deve ser tratado como uma identidade digital governada, com finalidade registrada, credenciais próprias, privilégios mínimos e permissões temporárias — nunca herdando automaticamente todos os acessos de uma pessoa, nem utilizando uma identidade genérica compartilhada com outros agentes.
O princípio de Zero Trust continua válido, mas precisa ser ampliado. Não basta verificar usuários e dispositivos: é necessário verificar continuamente agentes, modelos, APIs, serviços, conectores e identidades de máquina, já que uma credencial legítima não garante que a ação também seja legítima. O comportamento precisa, portanto, ser avaliado em relação ao contexto, ao objetivo e ao risco envolvido.
Dispositivo, comportamento, localização, histórico, padrão transacional, prova de vida, biometria e contexto da solicitação precisam formar uma visão integrada do risco.
Essa mudança também alcança a forma como as pessoas são verificadas. Com deepfakes de voz, imagem e vídeo cada vez mais realistas, nenhum desses elementos pode continuar funcionando isoladamente como prova definitiva de identidade — a nova fronteira é a confiança contextual e contínua.
A observabilidade agêntica, por sua vez, passa a responder sobre o que o sistema foi convencido a fazer. Isso inclui registrar instruções recebidas, fontes consultadas, ferramentas chamadas, parâmetros usados e resultados obtidos, além de monitorar desvios de comportamento em tempo real. Apesar de toda essa automação, a responsabilidade na IA agêntica não muda: continua sendo da organização. Decisões de maior consequência seguem exigindo julgamento, contexto e accountability humana.
Segurança pós-quântica: prepare-se antes que o risco se materialize
Se a era agêntica exige repensar quem pode agir sobre os sistemas, a computação quântica exige repensar por quanto tempo esses sistemas e seus dados permanecerão protegidos. O risco, no entanto, não começa apenas quando surgir um computador quântico criptograficamente relevante: informações criptografadas podem ser capturadas hoje e armazenadas para uma futura tentativa de decodificação, estratégia conhecida como “harvest now, decrypt later”, que muda completamente a lógica do prazo.
Por isso, para dados que precisam permanecer confidenciais durante muitos anos, a preparação em segurança pós-quântica já deve fazer parte da avaliação de risco das organizações. A questão central é se a informação protegida hoje ainda terá valor quando a quebra de criptografia se tornar viável, e quanto tempo a organização levará para adaptar todos os ambientes que dependem desses padrões.
O National Institute of Standards and Technology (NIST) publicou, em 2024, os padrões pós-quânticos e recomenda que as organizações iniciem a migração desde já. O planejamento do órgão prevê a retirada de algoritmos vulneráveis até 2035, com os sistemas de maior risco fazendo a transição antecipadamente.
Migrar uma grande organização, no entanto, não significa apenas substituir um algoritmo. A criptografia está distribuída em aplicações, bibliotecas, certificados, protocolos, equipamentos, integrações, sistemas legados e soluções de terceiros — o que torna o processo complexo e demorado.
O primeiro passo é construir visibilidade: é preciso identificar onde a criptografia está sendo utilizada, quais dados ela protege, por quanto tempo esses dados precisam permanecer seguros e quais ambientes exigirão mais tempo e esforço na migração. O segundo passo é desenvolver criptoagilidade — uma arquitetura que permita substituir mecanismos criptográficos de forma controlada, sem reconstruir integralmente cada sistema que depende deles. Isso exige abstração, desacoplamento, testes de interoperabilidade e capacidade de conviver temporariamente com diferentes padrões durante a transição.
Vale destacar que essa preparação não pode ocorrer de forma isolada, já que instituições financeiras dependem de fornecedores, infraestruturas de mercado, protocolos, plataformas e contrapartes que também precisam avançar nessa direção.
Resiliência como chave para o futuro da segurança
Em resumo, a era agêntica e a computação quântica trouxeram desafios estruturais para a segurança das organizações, especialmente as financeiras, que lidam diariamente com dados sensíveis e operações de alto impacto. Diante desse cenário, não basta reagir a incidentes pontuais: é preciso construir resiliência antes que os riscos se materializem, combinando governança de identidades, arquiteturas de confiança contínua e preparação criptográfica de longo prazo. A combinação entre autonomia tecnológica e confiança bem estruturada tende a definir quais instituições estarão mais preparadas para os próximos anos.
Com informações de mitsloanreview.com.br.