A sucessão familiar ainda é um dos maiores desafios enfrentados por empresas comandadas por famílias no Brasil e no mundo. Levantamento recente da Deloitte Private mostra que apenas 37% dos executivos dessas companhias têm plena confiança no preparo da próxima geração para assumir o comando dos negócios. O número contrasta com os 48% registrados quando a pergunta se refere ao desenvolvimento de quem já ocupa posições de liderança no clã atualmente.
Apesar desse cenário, a pesquisa indica que não há uma desconfiança generalizada em relação aos herdeiros. Segundo o levantamento, 44% dos entrevistados se dizem moderadamente confiantes nos sucessores. Ainda assim, os 19% restantes afirmam estar levemente desconfiados ou totalmente céticos quanto à capacidade dos mais jovens de tocar os negócios da família.
Troca de comando deve avançar nos próximos anos
De acordo com o estudo, 40% das empresas familiares pesquisadas devem mudar de CEO ao longo dos próximos 10 anos. Quando o recorte considera especificamente a liderança exercida pelas famílias controladoras, 27% das companhias estão em processo de sucessão ou esperam concluí-la dentro desse mesmo período.
A percepção sobre o despreparo da nova geração aparece justamente como um dos principais obstáculos para que essa transição de fato aconteça. Para 35% dos entrevistados pela Deloitte Private, o problema mais citado é a falta de qualificação ou experiência suficiente entre os possíveis sucessores. Logo depois, com 33%, vem a dificuldade de identificar um herdeiro adequado para o cargo. Já 32% apontam a resistência da própria liderança atual em abrir mão do controle como um entrave relevante.
Sucessão precisa ser construída com antecedência
Para especialistas, o processo sucessório exige planejamento de longo prazo, e não uma decisão tomada no momento em que o fundador decide se afastar da operação.
“A sucessão não deveria começar quando o fundador decide deixar a operação. O sucessor precisa construir repertório, desenvolver capacidade de liderança, compreender o negócio e, principalmente, formar sua própria identidade profissional. Não basta carregar um sobrenome ou pertencer a uma família empresária”, analisa Mohamad Abou Wadi, sócio da PIB The New College, faculdade voltada à formação de empreendedores e líderes.
Essa dificuldade de preparar adequadamente os herdeiros tem gerado, como consequência provável, uma maior abertura das famílias para a contratação de CEOs profissionais, sem vínculo familiar com os controladores. Segundo as expectativas dos próprios entrevistados, a fatia de companhias familiares comandadas por executivos de fora do clã deve dobrar após a próxima sucessão, saindo de 13% para 26%. Na América do Sul, o avanço projetado é ainda maior: 18 pontos percentuais, o maior aumento entre todas as regiões pesquisadas.
Planejamento formal ainda não acompanha a urgência da sucessão familiar
Mesmo diante da expectativa de mudanças relevantes de comando, a preparação formal para esses processos ainda está longe do ideal. Embora 89% das famílias afirmem ter algum tipo de plano de sucessão, apenas 50% dizem contar com um planejamento completo. No âmbito das empresas familiares, 82% possuem algum plano voltado à sucessão da alta liderança, mas somente 46% consideram esse plano completo — ou seja, a maioria ainda lida com lacunas importantes nesse processo.
Jovens herdeiros já ganham espaço em áreas estratégicas
Apesar dos entraves ligados à confiança e ao planejamento, os integrantes mais jovens das famílias já aparecem com força nas frentes associadas à transformação dos negócios. Eles representam 51% dos familiares que atuam em tecnologia e a mesma proporção em filantropia e relacionamento com a comunidade. Em vendas e marketing, essa participação chega a 50%, enquanto em inovação e pesquisa e desenvolvimento fica em 49%.
A expectativa das companhias é que essa presença mais jovem se traduza em mudanças concretas de rumo. Para 42% dos entrevistados, a nova geração deve ajudar a remodelar os negócios por meio da modernização tecnológica, enquanto outros 42% apontam a inteligência artificial como frente prioritária. Novos produtos e serviços aparecem citados por 40% dos participantes, e a expansão para mercados internacionais, por 39%.
Metodologia da pesquisa
O levantamento Family Business Succession Planning and The Next Generation, de 2026, ouviu executivos de 1,6 mil empresas familiares em diferentes países. Todas as companhias participantes faturam pelo menos US$ 100 milhões e têm uma família com participação de 51% ou mais em seu controle acionário. Juntas, essas empresas somam receita superior a US$ 4,4 trilhões, com média de US$ 2,8 bilhões por companhia — um retrato que reforça o peso econômico das discussões em torno da sucessão familiar nesse grupo de negócios.
Com informações de pipelinevalor.globo.com.