Governança & Planejamento Sucessório

Sucessão familiar: a rede de móveis catarinense que escapou da crise e já prepara a terceira geração

Sucessão familiar: a rede de móveis catarinense que escapou da crise e já prepara a terceira geração
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Enquanto o varejo de móveis e eletrodomésticos atravessa uma das piores crises de sua história — período que viu marcas como Etna, Casas Bahia, Tok&Stok, Westwing e Marabraz enfrentarem dificuldades severas —, uma companhia de Ponta Grossa caminha na direção oposta. Prestes a completar 50 anos de atuação, a empresa já organiza o processo de sucessão familiar que levará a gestão à terceira geração, apoiada em um programa permanente de corte de despesas, investimentos enxutos, expansão sob controle e preservação de caixa, além de evitar a concessão de crédito a consumidores com score mais baixo.

Quem resume a filosofia por trás dessa longevidade é Márcio Pauliki, CEO das Lojas MM: “Nenhuma empresa quebra por falta de lucro, mas por falta de caixa. Para conseguir R$ 30 milhões a mais de lucro, eu preciso vender R$ 1 bilhão a mais. O que é menos complexo? Reduzir despesas. Onde tinha dez pessoas, hoje eu posso ter cinco com processos melhores usando IA. Eu quero ir mais longe, não mais rápido”.

Como está estruturada a sucessão familiar nas Lojas MM

Márcio é um dos quatro filhos de Jeroslau e Cirlei, fundadores da Mercado Móveis em 1978. Ele completará dez anos à frente da companhia em 2032, quando chegará aos 60 anos. O plano prevê a entrega do comando das 260 lojas, inicialmente, a um CEO de fora da família — profissional que deve permanecer entre cinco e seis anos no cargo, até que algum dos herdeiros esteja próximo dos 35 anos e, assim, pronto para assumir o Grupo MM.

Atualmente, a rede soma 230 Lojas MM espalhadas por Paraná, Santa Catarina e Mato Grosso do Sul, além de unidades em Campina Grande (PB), Ourinhos e Itararé (interior de São Paulo), cada uma com uma filial própria. A holding ainda controla transportadora, agência de publicidade e participação em construtora que presta serviços às lojas e também atua na incorporação residencial.

A fatia societária dos irmãos de Márcio já foi distribuída entre as holdings individuais de cada um, sem espaço para sócios de fora da família — um deles, inclusive, atua como vice-presidente financeiro e de RH. Agora, porém, é a vez dos netos de Jeroslau e Cirlei serem colocados à prova. A filha mais velha de Márcio trabalha no marketing digital e e-commerce da MM, enquanto dois sobrinhos atuam na área de compras.

A fatia societária dos irmãos de Márcio já foi distribuída entre as…

Exigência dobrada e meritocracia na empresa familiar

Para Márcio, a entrada da nova geração não significa herança automática de cargos. “Eles são exigidos em dobro e vão assumir se acharmos que são competentes para isso. A gestão precisa ser profissional, não pode ser herdeiro fingindo que trabalha no conselho. Se não der certo para trabalhar na empresa, fica como acionista só”, afirma o executivo, que usa a própria trajetória como referência.

“Eles são exigidos em dobro e vão assumir se acharmos que são competentes para isso. A gestão precisa ser profissional, não pode ser herdeiro fingindo que trabalha no conselho. Se não der certo para trabalhar na empresa, fica como acionista só”

Segundo ele, o caminho começou cedo: entrou na MM aos 15 anos. “Até os 35, passei por todas as áreas até chegar à superintendência. Fui ajudante, office boy, vendas, depois fiquei no marketing e no planejamento. Meu sonho era ser motorista de caminhão da loja”, conta, com bom humor, orgulhoso de ter introduzido ferramentas como a análise SWOT depois de se formar em administração na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), somando ainda diversas especializações ao longo da carreira.

Simplicidade como estratégia de expansão

Uma das orientações de Márcio para a geração seguinte é manter os pés no chão — o que ele chama de “jeitão de rei do mato” — e resistir à tentação de perseguir receitas bilionárias nas capitais. “Curitiba é legal, mas nossa vocação é para o interiorzão. É melhor ser cabeça de bagre do que rabo de baleia. O desafio deles é continuar com esse jeitão da simplicidade. Eu vou a todas as lojas todos os anos”, diz.

Isso, no entanto, não significa abrir mão de formação sólida ou de ampliar horizontes. As filhas de Márcio se preparam para estudar fora do país, em Barcelona e na Califórnia, enquanto um dos sobrinhos cursa a FGV. “Tem que saber analisar um balanço, ler uma DRE”, resume o executivo, que acumula os papéis de filho, pai, tio e CEO dentro da mesma empresa.

Crescimento sustentado e metas para os próximos anos

Os números ajudam a explicar por que a sucessão familiar desperta tanto interesse. A receita saltou de R$ 500 milhões em 2019 para R$ 2 bilhões neste ano, com a expectativa de alcançar R$ 3,5 bilhões em 2032. Apesar do crescimento acelerado, a companhia mantém margem líquida de 3% e Ebitda entre 9% e 10% — um equilíbrio que, segundo Márcio, é essencial para atravessar ciclos econômicos mais turbulentos.

“Nosso grande objetivo é chegar a janeiro com dois faturamentos guardados para enfrentar o ano pós-eleitoral”, afirma o CEO, reforçando a lógica de caixa como prioridade sobre o crescimento a qualquer custo. Dessa forma, enquanto parte do setor luta para sobreviver, a trajetória da Mercado Móveis mostra que disciplina financeira, planejamento de longo prazo e uma sucessão familiar bem estruturada podem ser o diferencial entre encolher e seguir crescendo rumo à terceira geração.

Os números ajudam a explicar por que a sucessão familiar desperta tanto…

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