O escritório BMA está fechando mais uma etapa de um processo de sucessão que vem sendo desenhado há cerca de cinco anos. Os três sócios-fundadores — Plínio Simões Barbosa, Francisco Müssnich e Paulo Cezar Aragão — estão deixando o quadro societário da banca que ergueram há três décadas. Apesar disso, a mudança está longe de representar uma aposentadoria: os três continuam atuando, envolvidos em casos complexos e em discussões estratégicas da empresa, mesmo já tendo saído formalmente do comitê executivo.
Como funciona a sucessão no BMA
Com a transferência das cotas para outros sócios, o modelo em que os fundadores concentravam a maior fatia econômica dá lugar a uma estrutura mais institucional e pulverizada. Aragão já concluiu a venda de suas cotas ao fim de 2025 e, agora, mantém um contrato de prestação de serviço com o escritório. Até o fim deste ano, será finalizada a transferência das cotas de Müssnich, enquanto a de Barbosa está prevista para o fim de 2027.
Diferentemente de um M&A tradicional, não houve um modelo de cash-out baseado no valor presente de resultados futuros da banca. “É simbólico, essencialmente simbólico”, resume Aragão. Müssnich complementa o raciocínio: “E num formato generoso nosso, porque esse sempre foi um valor nessa casa. Valorizamos mais o legado e a preservação cultural e intelectual do escritório.”
Atualmente, o comitê executivo é formado por Luiz Antonio de Sampaio Campos, Bárbara Rosenberg, Monique Mavignier, Luiz Fernando Fraga, Luís Flaks, Carlos Frederico Bingemer, Pedro Costa e pelo sócio administrador Amir Bocayuva.
Um processo contínuo desde a fundação
Segundo Luiz Antonio de Sampaio Campos, conhecido como Totonho, que participou da fundação do Barbosa Müssnich em 1995 — ano em que o escritório nasceu, antes da chegada de Aragão em 1997 —, a sucessão, de certa forma, é um movimento que acontece desde a criação da banca. “De alguma forma, a sucessão é um processo que vem acontecendo desde que o escritório foi criado, no regime de partnership em que todo ano há um ajuste nas cotas, com entrada de sócios ou venda de cotas”, afirma.
Aos 52 anos, Totonho é o sócio-fundador mais jovem do BMA e se tornará o maior cotista da banca quando a sucessão for concluída. No entanto, os sócios fazem questão de ressaltar que o percentual de cotas nunca equivaleu a poder político dentro do escritório — ali, prevalece o peso do argumento. “Nunca teve um sócio que personificou ‘50% mais um’ das cotas, e nem sempre os três pensavam igual. O objetivo sempre foi buscar uma solução por consenso, não por maioria”, diz Totonho.
“É a ditadura da ideia, não interessa se foi do sócio com mais ou menos ações. Mas uma coisa que sempre tivemos é a busca por consenso: se algum sócio está muito incomodado com alguma decisão, a gente prefere rever, rediscutir, a impor pela maioria”, complementa Totonho.
Impacto da sucessão sobre a participação nos lucros
Na prática, o efeito mais imediato da sucessão recai sobre a divisão dos lucros do escritório. Para Bárbara Rosenberg, o processo não representa uma ruptura, mas sim uma forma de consolidar a continuidade da cultura institucional. “Não há ruptura. O grande legado é construir essa institucionalização, de escolher pessoas que podem continuar tocando o barco com o DNA dos fundadores, mas sem depender necessariamente da presença deles diariamente”, avalia.
Aragão, por sua vez, segue sendo uma referência interna: é apelidado de “0800” dentro do escritório, numa alusão à disposição com que atende consultas sobre históricos e pesquisas, recurso ao qual advogados — sobretudo os mais jovens — recorrem com frequência para construir teses e jurisprudências. Aos 76 anos, ele diz estar ainda mais engajado em pesquisa e compartilhamento de conhecimento.
Já Müssnich, aos 71 anos, não abre mão de participar de todas as reuniões de comitê e dos casos mais complexos. “Desacelerar? Meu nome é trabalho e o sobrenome é hora extra. Estou super bem, com disposição e me considero super fit”, brinca, afirmando ainda ver o nascer do sol quase todos os dias, entre corrida, beach tennis, ciclismo e banheiras de gelo. Bocayuva reforça o papel dos fundadores na nova fase: “Eles continuam como parte do time do BMA, e nós temos a missão de cumprir esse novo job description para aproveitar o que cada um pode oferecer de melhor para a sociedade em termos de manter essa cultura de excelência.”
Vida pessoal e desafios futuros
Enquanto a transição avança, Aragão e Müssnich estão prestes a defender, respectivamente, sua dissertação de mestrado e sua tese de doutorado. Barbosa, por sua vez, divide o tempo entre sua vinícola na região do Alto Douro, em Portugal, a Ávidos Douro, e a rotina da banca, que reúne 341 profissionais do direito distribuídos majoritariamente entre Rio e São Paulo, entre 89 sócios.
Fundadores e novos sócios concordam que um dos principais desafios para a geração seguinte será lidar com a inteligência artificial — tanto na rotina dos escritórios quanto na dinâmica dos negócios —, ainda que isso traga ganhos de produtividade no curto prazo. Esse, porém, é um dilema que caberá à nova geração resolver. Aragão lembra, nesse sentido, de um ensinamento antigo de Jorge Paulo Lemann: o sucesso de uma organização depende da capacidade de seus líderes de escolher pessoas melhores do que eles próprios. “Francamente, eu acho que nisso a gente tem sido muito bem-sucedido”, conclui.