A vitória de Lula no segundo turno, com diferença de cerca de 4,5 milhões de votos, reacendeu o desconforto da Faria Lima nesta segunda-feira. Soma-se a isso o temor de que a oposição não aceite bem a derrota — Flávio Bolsonaro já afirmou que vai pedir anulação do segundo turno por conta da extensão do horário de votação. A relação do governo com o Congresso também segue como ponto de tensão. Segundo pesquisa do Citi, gestores projetam queda do Ibovespa de ao menos 5% na abertura da semana, enquanto o UBS cogita a possibilidade de circuit breaker na bolsa.
Diante desse cenário, empresários e CEOs ouvidos pelo Pipeline esperam que a nova gestão de Lula — um inédito quarto mandato — finalmente coloque em prática um plano de urgência fiscal, de forma a abrir espaço para a queda dos juros. O aperto na renda da população pode ser, inclusive, um motivador extra para essa mudança de rumo. Há ainda uma série de temas pendentes no curto prazo que correm o risco de escorregar para o próximo ano, como a regulamentação da nova jornada de trabalho e eventuais ajustes no calendário da reforma tributária, além de pautas que foram usadas com fins eleitorais e que agora podem ser revistas.
Urgência fiscal e o desafio de reaproximar governo e empresariado
Para parte do empresariado, o novo mandato pode representar uma oportunidade de retomar políticas de Estado e estreitar a relação com o setor privado. “Muitos dos meus pares deixaram de ir a Brasília porque o ranço ficou tão grande que não queriam mais encontrar o Lula ou Haddad”, diz um empresário que prefere não se identificar.
Entre os que mantiveram o diálogo aberto, alguns encontros chegaram a surtir efeito — ainda que de forma passageira. Foi o caso da demanda da indústria e do varejo local por isonomia tributária em relação a sites internacionais, que resultou na criação da taxa das blusinhas. No entanto, a medida acabou sendo extinta pelo próprio governo em meio à campanha eleitoral.
“Tem que ter uma aproximação maior sim, mas por meio das associações de classe e institutos setoriais, para não cairmos no capitalismo de compadrio”, diz Frederico Trajano, CEO do Magalu.
“Os empresários precisam se envolver para não deixar o país somente nas mãos de políticos de carreira”, diz Wilson Poit.
Frederico Trajano, CEO do Magazine Luiza, reforça que, reeleito, Lula precisará reprogramar os gastos públicos para permitir a redução dos juros. “O capital é o combustível da iniciativa privada. Se o custo de capital está alto, a gente não consegue usar esse combustível”, afirma. Por isso, o executivo defende um diálogo mais intenso entre governo e setor privado, enfraquecido nas últimas gestões. “A responsabilidade é de mão dupla: as empresas devem dedicar mais tempo a Brasília e explicar suas dores a todos os Poderes, porque decisões públicas muitas vezes decorrem de desconhecimento. Isso deve ser feito pelas entidades de classe, para evitar o capitalismo de compadrio”, diz. Após mais um pleito polarizado, Trajano defende que o governo reeleito atue para todos, e não apenas para quem votou nele. “Tem que construir pontes e pontos de convergência pelo diálogo.”
Educação, varejo e construção cobram prioridade de Estado
Paula Harraca, CEO da Ânima Educação, avalia que, assim como o país já teve grandes agendas nacionais — caso do controle da inflação —, a próxima precisa ser a transformação do Brasil pela educação. “Estamos vivendo uma revolução tecnológica que, antes de tudo, é uma transformação humana. A IA está mudando o trabalho, as profissões e a maneira como vivemos. Precisamos preparar nossas crianças e nossos jovens”, avalia. Para ela, isso exige mudança de perspectiva: “educação não pode ser apenas um plano de governo. Precisa ser uma Política de Estado.” Um bom ponto de partida, segundo a executiva, é valorizar o professor: “A IA pode potencializar sua capacidade de ensinar, mas precisamos também conectar melhor aquilo que já temos. Universitários podem atuar como tutores de estudantes da educação básica, universidades podem abrir seus laboratórios para atividades no contraturno, e escolas, empresas e startups podem trabalhar juntas para que os jovens aprendam resolvendo problemas reais da sociedade.”
Já no varejo, Jorge Gonçalves Filho, presidente do Instituto para o Desenvolvimento do Varejo (IDV), lembra que alguns temas urgentes vão chegar à mesa do presidente antes mesmo de ele tomar posse. Durante a corrida eleitoral, Lula acabou com a taxa das blusinhas, e o setor pretende seguir pressionando. “Vamos continuar pressionando por isonomia para a indústria nacional”, diz. O presidente também proibiu as bets, mas a MP caduca no ano que vem — e Filho acredita ser mais provável uma restrição semelhante à aplicada ao cigarro do que a manutenção da proibição total. Ele cita ainda a falta de detalhamento da nova jornada de trabalho e da reforma tributária, dois temas que devem escorregar para o novo mandato. “Na jornada, o texto precisa ser cruzado com o restante da CLT (acordos coletivos, hora extra, descanso remunerado e não remunerado), e isso não ficará esclarecido a tempo. Na reforma tributária, varejistas e distribuidoras terão de divulgar tabelas de preço e formar estoques para o início do ano, a cerca de 60 dias, sem saber qual será a alíquota”, exemplifica.
Na construção civil, Eduardo Aroeira, presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), aponta a regulamentação da escala 5×2 e a mudança no calendário da reforma tributária como os pontos mais urgentes para o governo. A entidade entregou à campanha do presidente uma agenda de sete eixos pedindo que habitação, infraestrutura e obras públicas se tornem “prioridades de Estado”, além de propor um fórum permanente entre setor e governo, inspirado na experiência municipal da Codese, em que a sociedade civil se organiza, produz estudos e os apresenta a prefeituras. Aroeira também espera que o governo continue valorizando o programa Minha Casa Minha Vida — ainda que a mudança de jornada deva elevar em cerca de 10% os custos da mão de obra no setor, o que torna a redução dos juros um desafio ainda maior para a nova gestão.
Consumo, juros altos e o peso das dívidas nas famílias
Para Belmiro Gomes, CEO do Assaí, a recuperação do consumo em 2027 depende diretamente da redução do peso das dívidas no orçamento das famílias. “No contato com cerca de 40 milhões de clientes por mês e um milhão de micro e pequenas empresas, acompanhamos de perto como os juros comprometem a capacidade de compra e de investimento. Juro alto aumenta a desigualdade social: quem tem recursos aplicados recebe juros, enquanto quem depende de crédito compromete uma parcela maior da renda para pagar suas contas. O efeito é especialmente forte nas famílias de menor renda. Juro alto pesa no prato e no carrinho”, diz Gomes. Segundo ele, responsabilidade fiscal e controle da inflação são condições essenciais para uma queda sustentável dos juros. “Também precisamos de medidas duradouras contra os danos das apostas e dos cassinos online, com fiscalização efetiva, inclusive dos meios de pagamento das operações ilegais. Quando o jogo vira uma tentativa de pagar contas, temos um problema econômico e de saúde pública.”
Por fim, Wilson Poit, fundador da Poit Energia, que já atuou como secretário em governos de esquerda e de direita, defende que mais empresários se envolvam diretamente na política, “para o país não ficar sempre na mão de quem é político de carreira”. Para ele, a nova gestão é uma oportunidade concreta para isso. “O governo assume sem dinheiro, porque o recurso é do pagador de impostos e é limitado, e que a carga tributária e os gastos já cresceram muito sem que se discuta cortar despesas. Temos que entrar num período de arrumação das contas, como se faz numa casa ou numa empresa”, afirma. Poit lembra ainda que a campanha ampliou promessas que demandam mais gastos e que tendem a piorar o quadro fiscal caso não haja uma resposta clara do novo governo. “Vai ser um processo demorado e governo precisa escolher as melhores cabeças para decidir onde cortar”, conclui.
Com informações de pipelinevalor.globo.com.