O grupo Opportunity vai concentrar em suas mãos todo o controle da Belém Bioenergia Brasil, companhia que produz óleo de palma e palmiste no Pará. A operação prevê que o fundo Opportunity Dinâmico FIP compre a totalidade da participação que hoje pertence à portuguesa Galp na empresa, atualmente dividida entre os dois sócios. O valor da transação não foi revelado.
Com esse movimento, encerra-se a trajetória da Galp em um negócio que começou como uma aposta em biocombustível voltado ao mercado europeu e que, ao longo de 15 anos, passou por mudanças de sócios, de produto final e de escala de operação.
Como começou o projeto de diesel verde
A Belém Bioenergia nasceu em 2011, fruto de uma parceria entre a Petrobras Biocombustível e a Galp, cada uma com metade do capital. O objetivo inicial era abastecer uma refinaria de diesel verde em Portugal, com planos ambiciosos que incluíam três unidades industriais e uma produção estimada em cerca de 300 mil toneladas de óleo por ano.
Entretanto, a Galp abandonou o projeto da refinaria portuguesa em 2014, o que levou a produção a ser redirecionada para as indústrias de alimentos e cosméticos. Entre 2011 e 2018, os prejuízos acumulados da companhia somaram cerca de R$ 720 milhões, de acordo com levantamento da Agência Pública.
Já em 2019, a Petrobras vendeu sua metade à Galp, que reteve o pagamento até o fim de 2020 como garantia para eventuais indenizações. Vale lembrar que o Opportunity já circulava ao redor do negócio desde 2017, quando a Ecotauá — ligada ao então Opportunity Agro — se associou à empresa na usina de Tomé-Açu.
Uma operação que soma 45 mil hectares de dendê
Atualmente, a empresa cultiva dendê em cerca de 45 mil hectares, somando plantio próprio em terras arrendadas e áreas de agricultores parceiros. A estrutura inclui duas extratoras, localizadas em Tailândia e Tomé-Açu, além de uma refinaria com capacidade de 350 toneladas por dia, segundo dados divulgados pela própria companhia em 2024.
A produção média fica em torno de 170 mil toneladas de óleo por ano, sendo que aproximadamente 70% desse volume é destinado à indústria alimentícia, enquanto o restante abastece o biodiesel. Entre os clientes citados pela empresa estão nomes como Cargill, JBS, Bunge e M. Dias Branco.
Apesar da estrutura consolidada, o resultado financeiro da empresa oscila bastante conforme as condições climáticas. A receita líquida, por exemplo, caiu de R$ 1,07 bilhão em 2023 para R$ 758 milhões em 2024 — ano marcado pelo fenômeno El Niño —, e o prejuízo no período chegou a cerca de R$ 231 milhões, conforme balanço publicado no Diário Oficial do Pará.


O mesmo documento revela que a dívida de curto prazo da Belém Bioenergia saltou de R$ 58 milhões para R$ 547 milhões em apenas um ano. Dessa forma, o passivo circulante, de R$ 762 milhões, acabou superando o ativo circulante, de R$ 592 milhões.
Por que o Opportunity decidiu dobrar a aposta
Esse cenário financeiro ajuda a explicar a divisão de papéis observada na transação. Para a Galp, a Belém Bioenergia representa um ativo fora do núcleo estratégico do grupo, que faturou 19,5 bilhões de euros em 2025 e concentra sua atuação no Brasil nos segmentos de petróleo e gás, ao lado da Petrobras.
Já a justificativa do Opportunity é declaradamente financeira: ampliar a posição em um ativo que já integra sua carteira e concentrar o controle em um único acionista. A gestora, fundada em 1994, investe em setores como óleo e gás, infraestrutura, mineração, educação e agronegócio, mas não possui nenhum outro ativo ligado à produção de palma.
Por sinal, a compra da Belém Bioenergia não depende de aprovação de outros reguladores, seja no Brasil ou no exterior, e o contrato não prevê cláusulas de não concorrência. O fundo comprador, que se chamava Opportunity Agro até 2022, já havia participado, naquele mesmo ano, de uma operação envolvendo a Ambipar Emergency Response.
Documentos enviados à CVM mostram que o fundo detinha cerca de 38% do capital da companhia, posição registrada em R$ 524,6 milhões. Esse número implica um valor próximo de R$ 1,3 bilhão para a empresa como um todo — cerca de 26 vezes o valor implícito na venda realizada pela Petrobras em 2019.
O cenário do mercado de óleo de palma no Brasil
A consolidação do controle acionário ocorre em um momento em que o Brasil importa cerca de 30% do óleo de palma que consome, segundo dados da Abrapalma. A área plantada no país soma perto de 280 mil hectares, e a associação estima que essa área poderia triplicar em uma década, utilizando apenas terras já desmatadas.
No entanto, esse potencial de crescimento esbarra justamente nos mesmos fatores que pesaram sobre os resultados da Belém Bioenergia nos últimos anos, como os juros elevados, a concorrência da soja e o custo da terra. Com o controle agora concentrado em um único acionista, o Opportunity passa a decidir sozinho sobre capital, endividamento e uma eventual abertura de capital — hipótese que a própria direção da empresa já admitia em 2024, projetando-a para depois de 2027.
Com informações de capitalaberto.com.br.